quinta-feira, 7 de abril de 2011

Feridas....

· Quando se é criança e machuca-se o joelho, a ferida é curada no seguinte processo: O sangue coagula, o sistema imunológico entra em ação para ajudar na luta contra a infecção, uma cicatriz vai se
formando e uma pele saudável cresce por baixo.
· Muitas feridas saram em uma maneira predicável e ordenada.
Algumas vezes, de alguma maneira, uma ferida não sara.
· Assim como ocorre nas feridas no corpo, há feridas na alma que não cicatrizam, não saram, mas como no corpo exige-se uma série de exames para detectar o motivo da ferida não sarar, na alma também se faz necessário um check-up para saber a causa de uma pessoa ter uma ferida emocional, ou espiritual que não sara, que a impede de ir em frente.
· Se você tem uma ferida aberta por causa de um relacionamento familiar, amoroso, trabalhista ou ministerial, vale à pena saber que:

Quando as feridas não curam;- Isaias 1:61 - Dê tempo para a cura.
· A Bíblia nos diz em Eclesiastes 3: "Há tempo certo para cada coisa".
· Queremos tudo pronto, tudo preparado em um instante.
· Queremos filas rápidas, queremos comidas rápidas, queremos filhos rápidos, queremos sermões rápidos, orações rápidas e respostas mais rápidas ainda.
· Se você tem uma ferida aberta, uma ferida que não sara. Dê tempo ao tempo. Deixe o tempo se encarregar do processo de cura. Não tente apressar, não se cobre demais, não exigia uma cura instantânea.
· De repente nós fomos ferido pela vida, seja a nível de perda de um ente-querido, de uma desilusão amorosa, ou de alguém que lhe causou mal, ou ofendeu, ou magoou, ou tirou aquilo que você mais queria, ou mesmo alguém que nós tanto confiávamos nos traiu ou trocou, ou fez de tudo para destruir nossos sonhos, ficamos feridos(as), a melhor coisa à fazer é dar tempo ao tempo.

Quando as Feridas não Saram
2 - Deseje a cura."Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim havia muito tempo, perguntou-lhe: Queres ficar são?"( João 5:6)
· Jesus chega para esse homem que tinha uma enfermidade há trinta e oito anos e pergunta:
· Você quer ficar curado? E por que Jesus perguntou-lhe isso? Porque Jesus sabia que há pessoas que no fundo não desejam que suas feridas sejam saradas.
· Há pessoas que preferem cultivar suas dores com adubo da piedade dos outros.
· Tem gente que acha um charme andar de muletas ou com a cara enfaixada, ainda com a perna engessada.
· São pessoas que quando têm uma ferida feita pela vida, pelas circunstâncias velam suas feridas até ninguém aguentar mais.
· Nós conhecemos aquelas pessoas que na igreja ninguém aguenta mais falar com ela, porque quando ela vai falar, ela sempre fala a mesma coisa?
· No fundo pessoas assim, não desejam ser saradas. Aproveitam qualquer coisa para valorizarem o que lhes aconteceu.

Quando as Feridas não saram
3 - Não Mexa na Ferida
· Você já viu que tem gente que vai ao lugar onde a ferida ocorreu constantemente? (Tentei Fugir)
· Tem gente que marca no calendário: Nesse dia fulano me deu um chute.

Hoje faz vinte anos, seis meses, dezoito dias, três horas, quarenta minutos e dois segundos que o meu ex me traiu, me trocou.
· Ainda tem o caso daquelas pessoas que cultivam a ferida porque receberam uma profetada. (ou será uma bofetada?)
· Tem gente que vive para mexer na ferida. Alguém começa a falar de economia com ela, ela arranja um tempo de mexer na ferida de falar sobre o ocorrido. (tem coisa mais chata que isso ?)
· Se esse é seu caso, quero dar-lhe um conselho: Não tente fazer funcionar o que Deus já deu por encerrado. Não tente ressuscitar o que Deus já lhe deu o atestado de óbito e a causa da morte! É querer sofrer para sempre, é não ter auto-estima, é não perceber o valor que tem. (Eu tenho por hábito concretar as coisas que me machucam, pode nem ser a melhor solução....)

Quando as Feridas não Saram
4 - Deixe Deus curar você.
· Eu encontrei na Bíblia uma passagem que intitulo benefícios da vida com Deus, está no Salmo 103.
· A Bíblia nos revela que Deus conhece as nossas ferida: Isaias 1:6; João 5:6.
· Talvez nossos país não saibam da nossa dor.(que eles mesmos possam ter causado) Talvez seu cônjuge não se importe, talvez nossas feridas sejam tão profundas que já fizeram sulcos na alma, no coração.
Talvez a dor seja tão grande pelos acontecidos que só em começar a lembrar já choramos, choramos e não conseguimos conter as lágrimas, estamos afetando nossa memória emocional. (isso pode ser eterno)
Talvez foi algo tão sério que a vida ou alguma pessoa nos fez que ficamos feridos(as), paramos no tempo, não conseguimos ir em frente, perdemos o ânimo para viver.
· Deus quer curar nossas feridas interiores, emocionais;
Deus quer nos levar além da cura das memórias que nos machucam;
Deus quer nos dar vida em plenitude Jesus veio trazer, vida com significado.· Isaias 53:5
· Deus tem o maior interesse em cuidar, em nos curar em operar uma cura no corpo, na alma, no espírito. Uma cura emocional e em todos os sentidos.
· A Bíblia nos diz que o nome de Deus no hebráico é Jeovah-Rapha (Senhor que cura).
· Deus tem interesse e poder para nos curar , hoje, agora, nesse instante

Mais para que esta cura ocorra, precisamos QUERER!!!

IGREJA x INTERESSE # LOUVOR

É absolutamente perceptível o progresso e crescimento numérico da igreja evangélica brasileira nos últimos anos.

Entretanto, infelizmente nem tudo pode ser considerado um mar de rosas, até porque, com a mesma velocidade com que cresce, a igreja evangélica comete desatinos dos mais estapafúrdioscontrariando muitas vezes princípios elementares da fé cristã.


Boa parte das mensagens pregadas nos nossospúlpitos nos aponta o quão adoecido encontra-se o cristianismo brasileiro. O conteúdo das nossas mensagens é raso, sem substância e extremamentemistico. Se não bastasse isso, o evangelho pregado é um evangelho totalmente diferente daquilo que os Evangelhos nos ensinam e testificam. Junta-se a isso a mercantilização da Graça de Deus. Em nome do "gospel", Cantores evangélicos ganham milhares de Reais mercadejando a palavra da verdade.


Ora, assusta-me o fato de que tais cantores, cobram uma verdadeira fortuna pra "ministrar" nas igrejas aquilo que pensam ser louvor. Confesso que tal fato é absolutamente revoltante! Tem gente, cobrando 2, 3 até 10 mil Reais por "ministração"! Ora, isso é uma verdadeira aberração! Em um país de gente miserável e pobre, a igreja em vez de saciar a fome daqueles que anseiam por justiça e comida, comercializa a fé? Para piorar a coisa, já existem pastores cobrando para pregar o Evangelho da Salvação eterna. Que Evangelho é esse? Ora, esse não é o evangelho da Bíblia e sim o evangelho que alguns dos evangélicos fabricaram! Acredito que boa parte dos culpados desta "imoralidade mercantilista" sejam os pastores que pagam a estes cantores fábulas em dinheiro no propósito de verem suas igrejas cheias.

Infelizmente a Igreja deixou de ser a Comunidade da Palavra para ser a comunidade do oba-oba! Triste não? Sem sombra de dúvidas o quadro em questão nos leva a seguinte indagação: Para onde a igreja está indo? Será que ela não está caminhando a largos passos a uma nova "constatinização"? Será que em algum lugar de sua caminhada a igreja perdeu o salutar hábito de tudo fazer para a glória de Deus?Ah! que saudade! da boa música, ministrada, cantada, com unção, cujo interesse era simplesmente engrandecer o nome de Deus! Pois é, parece que nos últimos anos, a igreja se perdeu no caminho em direção ao trono de Deus. Isto porque, as letras de algumas das suas composições, são empobrecidas teologicamente, antropocêntricas, simplistas e sem óleo.

Falta oração, busca de Deus, consagração e compromisso com a Palavra. Se não bastasse isso, os meios de comunicação evangélicos tornaram-se amplamente manipuladores do povo de Deus imprimindo na mente de gente simples valores que com certeza não são valores do reino.

Confesso que dificilmente ouço as rádios evangélicas. Ora, não estou de forma nenhuma desfazendo deste veículo de comunicação. Sei da importância dos meios de comunicação em massa e louvo a Deus por termos alguns destes em nossas mãos, entretanto, prefiro ouvir bons CDs de gente comprometida com evangelho, do que dedicar o meu precioso tempo a programações que manipulam a fé do povo de Deus.

Por acaso você já se deu conta de que em época de eleição,e teremos novas em 2012 aparece muitos que usam o nome de Deus para atingir uma posição política na Câmera de Vereadores ou Congresso Nacional? Quero ressaltar de que não tenho nada contra aquele que tenha vocação política, entretanto, sou absolutamente contrário a aqueles que usam o nome de Deus no intuito de projeção própria! Ora, se o sujeito tem vocação política, vá no nome da cidadania e não no nome de Deus. Até porque, se o político exercer cidadania com ética e integridade moral, o nome de Deus será glorificado. Contudo, se usa o nome de Deus fazendo apologia a um mandato público e não se é ético nas relações, o nome de Deus é vilipêndiado.
A situação anda tão deprimente que já existe fã-clube de artista gospel. Sei ainda de algumas histórias de cantores que precisam de segurança pra andar em lugares públicos. Ora por favor, responda sinceramente: que evangelho é este? Será que a igreja não perdeu a visão da diaconia, do serviço mútuo? Há! que saudade do tempo em que se cantava e entoava cânticos por missão! Reflitamos irmãos com sinceridade, será que a igreja evangélica está preocupada com a glória de Deus? Nos cultos percebemos chavões do tipo - Tudo para Sua glória! - A Ele o louvor, e outros tantos mais, no entanto sou impelida a fazer o seguinte questionamento: Será que se Jesus entrasse em nossos templos hoje, ele agiria diferente do que agiu quando entrou no templo de Jerusalém?

"E encontrou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas e também os cambistas assentados; tendo feito um azorrague de cordas, expulsou a todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas, e disse aos que vendiam as pombas: tirai daqui estas coisas, não façais da casa de meu Pai casa de negócio." Jô 2:14-16

No texto em questão a Bíblia nos mostra um Jesus indignado. Isto porque, os valores da casa de Deus estavam absolutamente deteriorados. Vendia-se tudo que se era possível para o sacrifício. Na verdade eles estavam muito mais preocupados com o lucro do que com o sacrifício em si. Repare que Jesus repreendeu os que vendiam as pombas (vs 16), isto se deve ao fato das pombas ser geralmente oferecidas como sacrifício pelos mais pobres. Jesus aqui combate também a espoliação dos menos favorecidos pela sociedade. Sim, combate o enriquecimento de alguns em detrimento da religiosidade de outros. O Interessante é que ele joga o dinheiro no chão. Isto nos leva a entender de que o lugar que dinheiro deve estar é bem longe da cabeça e do coração. Dinheiro tem que estar no chão! Debaixo dos nossos pés, submetido inteiramente a Deus.
 O meu desejo é que o Senhor nosso Deus nos reconduza a sala do trono e que lá possamos adorá-lo integralmente entendendo assim, que a glória, o louvor, a soberania pertence exclusivamente a Ele.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Joelho dobrados

Você já viu um passarinho dormindo
num galho ou um fio sem cair ???
Como é que ele consegue isso?
Se nós tentássemos dormir assim
iríamos cair e quebrar o pescoço.

O segredo está nos tendões das pernas do passarinho .
Eles são construídos de forma que quando o joelho está dobrado
o pézinho segura firmemente qualquer coisa.
Os pés não irão soltar até que ele desdobre o joelho para voar.

O joelho dobrado  é o que dá ao passarinho a força para segurar qualquer coisa
É uma maravilha , não é ???
Que desenho incrível que o Criador fez para segurar o passarinho.
Mas , não é tão diferente de nós.

Quando nosso "galho" na vida precária, quando tudo está ameaçado de cair,
a maior segurança, a maior estabilidade de nós vem de um joelho dobrado,
dobrado em oração.

Se você algumas vezes, se vê num emaranhado de problemas que te fazem
perder a fé, desaminar de caminhar , não caminhe mais sózinho Jesus
quer te fortalecer e caminhar contigo por toda sua vida é ele quem renova
suas forças e sua Fé.

Se  Deus nosso Pai cuida de um passarinho , imagina o que não fará
por você (nós) seu filho(a) amado(a).
Basta Você crer.
***********

" Como faz bem dobrar os joelhos diante d'Ele!! o coração transborda...
Aos poucos uma leveza vai tomando conta de nosso coração. Dobrar os
joelhos é sentir-se criatura diante do Criador!
Que humildade!
Quanto desejo de amor."

domingo, 6 de março de 2011

Dependencia

Segundo a psicologia, a dependência amorosa tem como característica a anulação de si mesmo em detrimento do outro. A pessoa que sofre deste distúrbio, coloca todas as suas expectativas de realização pessoal e emocional no alvo de seus sentimentos.
Assim como um dependente químico, aquele que sofre de dependência amorosa se torna compulsivo, sofrendo crises de abstinência na ausência de sua "droga" e fazendo coisas que normalmente não faria, a fim de obter a satisfação de sua carência.

Tudo começa como um relacionamento normal, até que ele evolui ao nível da obsessão. Como não sou psicóloga ou especialista no assunto, não entrarei no mérito das causas deste transtorno, ou seja, o que faz com que um amor se transforme numa patologia.
Sem citar nomes, por questão de respeito e segurança, digo que tenho acompanhado de perto isso que, na minha leiga opinião não é amor, mas vício e percebi o quão destrutiva essa dependência pode ser.

O caso em questão é um relacionamento de aproximadamente 7 anos entre uma mulher que se tornou totalmente submissa (não exatamente no sentido bíblico, até porque o casal em questão não era cristão) e um homem dominador que sente prazer em exercer este papel, fazendo-o com requintes de crueldade e humilhação.

Ela perdeu sua dignidade; ele perdeu a noção dos limites. Ela se contentava com as migalhas que recebia e tinha medo de perdê-las; ele age como se essas migalhas fossem produto de sua generosidade.

Mas se você acha que está longe de histórias assim, pode se surpreender ao saber que está mais próximo do que imagina. A internet, por exemplo, é um meio que proporciona o aparecimento de casos assim.

Tantas vezes nos deparamos com notícias nos jornais mostrando casos de mulheres enganadas por homens que conheceram pela internet e por eles se deixaram envolver através de palavras doces e propostas interessantes, se tornando cada vez mais vulneráveis às manipulações dos mesmos, não é mesmo?!

Mas o que fazer quando nos deparamos com pessoas conhecidas que passam por esse tipo de situação? O que fazer quando, num momento de desespero, a vítima vem ao nosso encontro pedindo auxílio, mesmo quando sabemos que no final das contas tudo muito provavelmente ficará na mesma?

É nosso dever como cristãos prestar auxílio aos necessitados, independente da forma como a necessidade se apresente. O auxílio pode ser através de aconselhamento, apoio psicológico, material, em forma de oração e, em casos extremos, através de acompanhamento na busca por orientação legal e policial.

De qualquer forma, por mais que fiquemos inconformados com a cegueira e falta de atitude das vítimas, não podemos nos negar a ajudá-las. Quem cai e se machuca, muitas vezes precisa de uma mão para poder levantar. Quem está no escuro e não sabe onde está o interruptor, precisa de alguém para lhe mostrar a luz.

Portanto, querido leitor, se você conhecer um caso assim, ajude! Siga o exemplo de Cristo que nos ensinou a amar o próximo como a nós mesmos e a prestar socorro aos necessitados.

Mas se você é uma pessoa que não apenas conhece, mas vive essa patologia, saiba de que Cristo te amou muito mais do que qualquer outra pessoa poderia amar, a ponto de dar a própria vida por você na cruz; somente Ele é digno de adoração e devoção. Tenha em mente que Deus não te criou para ser rebaixada e humilhada.

"Depois disse o Senhor Deus: "Não é bom que o homem fique sozinho. Vou fazer uma companheira para ele, uma auxiliadora à altura dele". (Gn 2.18)"

Que Deus abençoe sua vida!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Mulheres que Transformam

Jael cujo nome significa “cabra selvagem, montês”, isto que “cabra que vivia nas montanhas”.Ela não era judia e, juntamente com seu marido Héber, fazia parte de uma tribo nômade.Eram queneus ( os queneus eram povos nômades que viviam em clãs nas Terras Prometida de Canaã e que segundo a Bíblia, tiveram um papel muito importante na formação da religião dos hebreus. Com efeito, a Bíblia refere-se a um sacerdote queneu, isto é, Jetro, descendente de Midiã, que terá iniciado Moisés, seu genro, no ofício do socerdócio)
Observa-se que Héber, o queneu, era relacionado com o sogro de Moisés e, desta forma, com os israelitas (Juízes 4:11). No entanto, ele parece ter abandonado esse relacionamento e se mudado para o norte, aliando-se a Jabim, o rei cananeu. Em outras palavras, é como se ele tivesse mudado de lado. Ele não estava mais do lado israelita, e sim do lado cananeu.
O fato, aparentemente, era de conhecimento comum, pois Sísera fugiu para a casa de Héber achando que estaria seguro sob a proteção de um aliado. Parece que, providencialmente, Héber não estava em casa. Assim, Sísera cometeu um erro fatal ao procurar refúgio ali.
A resposta de Jael fê-lo acreditar que encontrara um lugar seguro onde poderia comer e descansar, e depois continuar sua fuga para casa. Ela o convidou a entrar na tenda e lhe disse para não temer. Depois que ele entrou, ela o cobriu com uma manta ou coisa parecida. Ela lhe deu leite, o que, combinado com sua fadiga, foi o suficiente para fazê-lo dormir. Ela também lhe prometeu ficar vigiando à porta da tenda. Sísera presumiu que, se alguém o procurasse, ela diria que ele não estava. E, então, ele adormeceu - pela última vez. Nunca mais acordou. (Juízes 4; 17-24)
Pela maneira como Sísera chega a sua tenda, ela deve ter percebido que os israelitas estavam vencendo a batalha contra os cananeus. Ela deve ter sentido que esta era sua oportunidade de ajudar Israel, matando Sísera. Armar e desarmar tendas eram serviço de mulher; por isso, Jael tinha sempre à mão suas ferramentas de trabalho, e sabia como usá-las. Enquanto Sísera dormia profundamente, ela pegou uma estaca da tenda e a encravou em seu crânio, penetrando até o chão. Não muito depois chega Baraque, em perseguição a Sísera. Jael o chama e lhe mostra o corpo estendido na tenda com a cabeça encravada no chão.
Foi nesse contexto da História do Antigo Testamento que o Senhor usou essa mulher transformada, estrategista e bendita para ajudar Débora e Baraque a liquidar um grande inimigo de seu povo.Jael dentro de si tinha a mensagem do Senhor, pois enquanto seu esposo ficava do lado dos inimigos do povo de Deus ela estava do lado certo, do povo de Deus. Veja só, a estratégia de Jael, sim, porque ela percebe a oportunidade que Deus lhe concedia. Ela recebe Sísera em sua tenda e lhe dá uma recepção de amigos oferecendo-lhe leite. Débora a chamou de bendita (Juízes 5:24) por causa de sua atitude estrategista e corajosa. Jael possuía sabedoria de Deus. Ela havia cometido vários crimes aos olhos da cultura da época, pois infringiu as leis da hospitalidade, falsidade, traição e homicídio. No entanto, ela vai ao encontro de Baraque com alegres noticias (Juízes 4:22).
Do ponto de vista israelita, Jael fez um trabalho de mestre. A glória realmente é dada a ela, e não a Baraque.Embora fosse uma estrangeira, a sua atitude fez dela uma mulher honrada pelo Senhor, que marca a sua época ( Juizes 5: 6-b)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Participação dos Negros na Política - Parte 1

Aumenta a participação dos negros na política Apesar do modesto crescimento
de 3% da bancada negra ou afrodescendente – que pulou de 5% para 8,5% em 2011 –, com 43 deputados eleitos, a Frente Parlamentar da Igualdade Racial pode chegar a 220 deputados, número que mostra uma relativa força política do Movimento Negro para votar matérias de interesse da comunidade negra.

O primeiro parlamentar federal negro eleito foi Eduardo Gonçalves
Ribeiro, maranhense e filho de escrava. Anteriormente, já havia sido o primeiro afrodescendente a assumir um governo de província, a do Amazonas, de 1892 até 1896. Logo em seguida, é eleito senador, mas não toma posse. Em 1897, foi eleito deputado federal, exercendo o mandato até sua morte em 1900. De lá para cá, o voto étnico negro produziu interessantes situações de sucesso eleitoral, como Alceu Collares, no Rio Grande do Sul, Albuíno Azeredo, em Vitória, em 1991, ambos do PDT, Benedita da Silva, do PT, em 1989, Celso Pitta, do extinto PPB, em 1996, e o caso clássico de Leonel Brizola com seu
"Socialismo Moreno", mas que não conseguiu tirar a massa negra do processo de alijamento eleitoral, haja vista a pouca representatividade própria dos negros que se sagraram vitoriosos nas eleições de 2006 e 2008.

No entanto, cresceu em 3% a participação dos negros na política
brasileira, que era de apenas 5% na última eleição de 2008. Em 2010, o Congresso Nacional elegeu 43 deputados e deputadas negros, chegando ao índice de 8,5% de negros no Parlamento brasileiro. O PT continua sendo o partido que mais elege negros no país: nas eleições de 2010, elegeu quase a metade dos 14 parlamentares
autodeclarados afros. Em seguida vem o PMDB e PRB, partido do ex-vice-presidente José Alencar, com seis eleitos. Já o PCdoB, quatro; e PR, PSC, DEM, PSB e PTB elegeram apenas um deputado cada.

Merece destaque no apontamento (Balanço eleitoral do voto étnico
negro) feito pela Unegro – União de Negros Pela Igualdade – o fato de no PRB estar despontando uma geração de lideranças políticas negras oriundas de importantes grupos evangélicos, muitas delas, inclusive, ocupantes de cargos da alta cúpula das principais igrejas, como Igreja Universal do Reino de Deus e Evangelho Quadrangular.

Quanto ao mapa geopolítico, a Bahia, além de ter a maior
 população negra, também tem a dianteira no quesito de representação parlamentar, elegendo a maioria dos negros aos cargos de deputado federal, num total de sete, mesma quantidade de Maranhão e Rio de Janeiro. Na segunda colocação ficou Minas Gerais, com cinco membros para a 54ª Legislatura da Câmara dos Deputados. Para as Assembleias Estaduais, foram eleitos 39 deputados estaduais ou
distritais, a maioria filiada ao PT, 14; PTB, quatro; PSB e PRB, com três deputados cada, quase todos com domicílio eleitoral na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, estados que mais elegem deputados estaduais negros do Brasil.

Apesar do modesto crescimento de 3% da bancada negra ou afrodescendente

– que pulou de 5% para 8,5% em 2011 –, com 43 deputados eleitos, a Frente Parlamentar da Igualdade Racial pode chegar a 220 deputados, número que mostra uma relativa força política do Movimento Negro para votar matérias de interesse da comunidade negra. De acordo com os pesquisadores Amaury de Souza e Nelson do Valle, os negros têm comportamento eleitoral diferente dos brancos. Por exemplo, em 1960 os negros votaram mais em Jango, o que comprova a vocação em votar em candidatos do campo trabalhista e populista.

Outros exemplos são as eleições de Brizola e de Benedita da Silva
para o governo do Rio de Janeiro. Essa guinada deu-se acentuadamente a partir da Constituição de 1988 ao permitir o voto dos analfabetos, com o qual milhões de cidadãos negros foram alçados ao eleitorado. Contudo, o sociólogo Antonio Sergio Guimarães, autor do livro Classes, Raças e Democracia, ressalta que o voto étnico não é uma exclusividade da comunidade negra, pois já é utilizado pelos italianos, sírio-libaneses e portugueses. Porém, os 43 deputados federais de origem afrodescendente empossados em 1º de fevereiro comprovam que ainda é forte a segregação racial quanto à representação política brasileira, pois de todo o Congresso Nacional apenas 8,5% são compostos por negros, e há
somente dois senadores da República de etnia negra.

Já a Frente Negra do Congresso Nacional, criada em maio de 2007, tem
uma composição bem melhor e até certo ponto expressiva, 220 deputados e quatro senadores, sendo o PT o partido que mais possui membros, com 70 deputados, seguido pelo PMDB, com 44, o DEM com 12 e o PSB com 11. Os senadores dessa frente são oriundos do Bloco PT/PCdoB.

No entanto, somente nove partidos políticos, dos 27 legalmente constituídos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), têm secretarias dedicadas aos negros ou de setorial afro. São eles: PHS, PT, PMDB, PDT, PTB, PRB, PSTU, PCO e PSDB, com o seu Tucanafro.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

FEMINISMO & TEOLOGIA

A TEOLOGIA FEMINISTA

1. ORIGENS DO FEMINISMO CRISTÃO

No fim do século passado, um grupo de mulheres cristãs norte-americanas, lideradas por Elizabeth Cady Stanton, começaram a se reunir periodicamente para estudar todas passagens bíblicas onde havia referência à mulher, a fim de relê-las e interpretá-las à luz da nova consciência que a mulher tinha de si mesma. Nesses encontros nasceu a Woman’s Bible, editada em duas partes, respectivamente em 1895 e 1898, uma obra que abalou o mundo protestante americano. A realização desse vasto projeto de revisão e re-interpretação da Bíblia por parte de um grupo de mulheres é o primeiro sinal marcante de uma nova consciência da mulher, que amadureceu também no interior de comunidades cristãs. A idealização da Bíblia da Mulher foi considerado como um fato tanto cultural como eclesial e como ponto de partida de um longo processo, que levaria em torno dos anos sessenta — contemporaneamente ao emergir das teologias da libertação — à elaboração do projeto de uma “teologia feminista”.

1.1 No campo católico

Fundou-se a  “Aliança Internacional Joana D’Arc”, instituída na Grã-Bretanha em 1911. Foi um dos primeiros movimentos no meio católico e propunha-se  a “assegurar a igualdade dos homens e das mulheres em todos os campos”. As associadas da Aliança usavam como lema de reconhecimento a fórmula: “Pedi a Deus: Ela vos ouvirá!” O uso polêmico do feminino “Ela” a propósito de Deus sublinhava que Deus não é nem masculino nem feminino, mas está além das diferenciações sexuais, relativizando assim, pelo menos no plano linguístico, o predomínio do gênero masculino.

1.2 No campo protestante

Verificou-se outro momento importante no período de 1956 a 1965, quando as principais correntes do protestantismo decidiram admitir as mulheres no pastorado, fato que representou uma grande novidade eclesiológica nestas comunidades, com exceção das igrejas livres do Estados Unidos que praticavam a ordenação de mulheres desde 1853.

2. INFLUÊNCIA NA TEOLOGIA CATÓLICA

O movimento teológico feminino em crescente ascensão se impôs também à teologia da Igreja católica: Por ocasião do Concílio Vaticano II, quando um grupo de mulheres, chefiadas por Gertrud Heinzelman, dirigia-se publicamente aos padres conciliares com o livro-manifesto, onde o tema principal era: — “Não estamos mais dispostas a calar”. A Editora do volume, argumentando a partir de sua condição de jurista, se exprimia na introdução da obra da seguinte forma: “Se o batismo faculta ao homem receber os sete sacramentos, mas faculta à mulher receber apenas seis sacramentos, então o batismo não opera com a mesma eficácia no sentido de tornar o homem e a mulher membros da Igreja. Deste modo  se era proibido à mulher a recepção de um sacramento, isto significava a redução dos direitos eclesiais da mulher como pessoa, como também uma diminuição no que tange ao estatuto dos membros da Igreja. Além disso, no que se refere ao estado laical, os direitos dos homens e das mulheres não eram equivalentes, por que os homens tinham a possibilidade de receber a ordenação sacerdotal, enquanto as mulheres permaneciam excluídas desta possibilidade”.

2.1 Após o Concílio Vaticano II

Nos anos do pós-concílio a problemática ampliou-se tornando-se evidente pelo livro, pioneiro em campo católico, da teóloga Mary Daly, intitulado “A Igreja e o segundo sexo” (1968), que representou a primeira resposta católica articulada — o próprio título insinuava isso — à obra da escritora francesa Simone de Beauvoir, “O Segundo sexo” (1949), “A mística da feminilidade” (1963) de Betty Friedan e a “Política do sexo” (1969) de Kate Millet, representaram o texto-base do feminismo contemporâneo.
No primeiro tomo de sua obra, Simone de Beauvoir dedica um capítulo ao estudo da relação entre cristianismo e mulher, que se abre com estas palavras: “A ideologia cristã contribuiu não pouco para a escravidão da mulher”.  O livro de Mary Daly não pretendia ser um confronto filosófico com toda a exposição de Simone de Beauvoir, que se movia na perspectiva da moral existencialista, mas apenas seguir o filão da crítica ao cristianismo para avaliar sua base histórica e elaborar uma “resposta adequada” da parte cristã. Nesse livro, a jovem professora do Boston College tentava, com abordagem nova e despreconcebida, apresentando uma leitura da tradição bíblica e eclesiástica do ponto de vista da mulher. O livro é, em grande parte, um processo à tradição antifeminista da Igreja, embora Daly no fim de sua reconstrução histórica exprisse a convicção de que, apesar dos condicionamentos e dos desvios da história eclesiástica, o Evangelho permanece sempre uma mensagem de esperança para cada homem ou mulher. E, pegando a onda do concílio recém-celebrado, propunha um vasto programa de reforma da doutrina e da prática da Igreja, que formulava em termos de “exorcismo cultural” (Harvey Cox) frente ao sexismo da Igreja e da sociedade: “A cristandade, e particularmente a Igreja Católica, ainda não enfrentou a tarefa que lhe compete, ou seja, exorcisar o demônio dos preconceitos sexuais permanecendo até mesmo a reboque do mundo”.
Nas últimas décadas, um grupo de mulheres cristãs, bastante numeroso e qualificado, inicialmente nos Estados Unidos e depois na Alemanha e Europa, desenvolveram um novo tipo de reflexão teológica, que foi denominado de “teologia feminista” e cuja fase de formação pode ser colocada aproximadamente em paralelo com o que aconteceu com a teologia latino-americana da libertação e com a teologia negra norte-americana, entre os anos de 1968-1975.       

3. DA TEOLOGIA DA MULHER A TEOLOGIA FEMINISTA

A teologia feminista não é, propriamente falando, uma “teologia da mulher”. Nos anos do pós-guerra, como reação às abstrações de certa teologia neo-escolástica e para fazer frente a novos problemas emergentes, afirmaram-se as chamadas “teologias do genitivo”, como por exemplo — para relembrar as mais conhecidas e as melhor elaboradas - “a teologia das realidades terrestres” (Thils) e a “teologia do trabalho” (Chenu). Nas teologias do genitivo, o genitivo (objetivo) exprime o âmbito, o setor da realidade, o objeto, sobre o qual se aplica a reflexão teológica. As teologias do genitivo são teologias chamadas de “setoriais” e servem para dar mobilidade e concretude ao discurso teológico. Elas são de alguma forma, inevitáveis, mas pode-se abusar delas na medida em que os genitivos podem ser acriticamente multiplicados e nem sempre delimitam, sob o perfil metodológico, um adequado campo de pesquisa e de reflexão teológica.

3.1 A Teologia da Mulher

No contexto da vivaz proliferação das teologias do genitivo surgiu, nos anos Cinqüenta, também uma “teologia da mulher”. No ano mariano de 1954, em que se celebrava o centenário da definição do dogma da Imaculada Conceição (1954), um número especial da revista L’Agneau d’Or propôs “o esboço de uma teologia da mulher”, tema que foi retomado nos anos seguintes, por exemplo, na publicação da obra “Elements pour une théologie de la femme” (Rondet) e em “Pour une théologie de la féminité” (Henry). A teologia feminista é decididamente crítica com relação à “teologia da mulher” por causa da sua unilateralidade e de seu androcentrismo (pensamento centrado em sí própria ou preocupada consigo mesma); com efeito, ela foi elaborada por teólogos (e, além do mais, “clérigos”), que não elaboravam uma correspondente “teologia do homem “, ou “teologia da masculinidade”, além disto, também por força de sua própria origem utilizavam acriticamente representações e esquemas mentais derivados da dominante cultura patriarcal. Karl Barth, foi mais correto, sob o perfil metodológico, quando dedicou uma seção da sua Kirchliche Dogmatik (no vol. III/4, editado em 1951) a uma “antropologia dos sexos”, onde enfrentava o tema antropológico de homem e da mulher, ainda que sua exposição, do ponto de vista do conteúdo, não estivesse isenta de esquemas mentais derivados também da cultura patriarcal.

3.2 A Teologia Feminista

Se quisermos utilizar a categoria de “teologia do genitivo” para dar uma primeira definição da teologia feminista, será preciso dizer que ela é, ao contrário da teologia da mulher, uma teologia do genitivo subjetivo, isto é, uma teologia de mulheres é feita pelas mulheres: “Pela primeira vez, concretamente, as mulheres se tornaram sujeito da própria experiência de fé, da sua formulação e da relativa reflexão, e por isso, sujeito do fazer teologia”, e, somente na dependência deste novo fato cultural e eclesial, a teologia feminista é também uma teologia do genitivo objetivo: mulheres cristãs refletem sobre sua experiência humana e cristã, e experimentam criticamente sua experiência. Desse modo a teologia feminista introduz no círculo hermenêutico — o círculo que liga a experiência do passado fixada nos textos da Bíblia e da tradição à experiência atual da mulher — a outra metade da humanidade e da Igreja, enriquecendo a experiência de fé, a sua formulação e as suas expressões. A teologia feminista é a teologia de mulheres cristãs que tem a coragem de “fazer viagem rumo à liberdade”; ela não quer ser unilateral, mas reagir com eficácia à unilateralidade da teologia dominante e prática eclesial, e se apresenta como uma contribuição “à dimensão incompleta da teologia”, em vista de uma autêntica “teologia da integralidade”.

3.3 O Neo-feminismo

A teologia feminista se constitui e se afirma num confronto crítico com as instâncias do feminismo moderno. Na história do feminismo — que nasce semanticamente não só como termo, mas também como movimento diversamente organizado na primeira metade do século XIX, na França, Grã-Bretanha, Estados Unidos e se difunde nos outros países do Ocidente — é possível identificar dois estágios:
- o estágio dos movimentos pela emancipação da mulher (até o início dos anos Sessenta), representavam as várias organizações feministas empenhadas nas lutas pela igualdade dos direitos civis;
- e um estágio  posterior ao primeiro (a partir dos anos Sessenta), em que o feminismo, primeiro nos Estados Unidos e depois no resto da Europa, assumiu a forma de movimentos de “libertação da mulher” (neo-feminismo), que impulsionaram as lutas da teologia feminista, para além da Igualdade. A consciência da mulher experimenta uma profunda transformação e, agora, percebe que lhe é atribuído um papel e um lugar, num mundo que permanece mundo do homem; assim sendo, questiona este mundo masculino e os seus modelos antropocêntricos e as suas estruturas patriarcais.
O neo-feminismo vai além da emancipação e da igualdade, que contudo continuam sendo um pressuposto necessário de um vasto processo, que é ao mesmo tempo psicológico, socioeconômico e cultural:
a) Ele comporta uma libertação fundamental e radical das mulheres, que reivindicam a autonomia como seres humanos: trata-se, pois, de um processo (sócio) psicológico;
b) além disso, ele pressupõe uma lúcida análise dos fatores sociais e econômicos, que estiveram em jogo na opressão das mulheres: trata-se também de um processo social e econômico;
c) por fim, ele se revolta contra uma cultura unilateralmente masculina, asssumindo assim também a forma de contra-cultura.
A teologia feminista é expressão de mulheres, ao mesmo tempo feministas e cristãs, que compartilham com outras irmãs - num relacionamento ideal e militante que responde pelo nome de irmandade. A nova consciência da mulher e a militância para a emancipação e a libertação da mulher, está empenhada em suas comunidades a uma reflexão de fé. Trata-se, então, de uma forma de “teologia contextualizada”, em que a reflexão teológica não acontece de forma predominantemente acadêmica, mas surge depois, a partir de um determinado contexto de compromisso e de militância. Segue-se que a teologia feminista não tem a sistematicidade da teologia acadêmica; é uma teologia feita por fragmentos, e não uma teologia sistemática e completa; é uma teologia mais narrativa do que argumentativa, na medida em que não parte de conceitos abstratos, mas do relato participado e compartilhado na escuta, de histórias de experiências, para chegar, a partir daí, à formulação da experiência de Deus. Contudo, ainda que na fragmentariada, a teologia feminista alcançou tal grau de elaboração que se constituiu num relevante fenômeno teológico.
A teologia feminista assume a mesma estrutura das teologias da libertação, que se auto-compreendem como “segundo ato”. Uma autêntica teologia cristã é sempre “segundo ato”: a inteligência teológica pressupõe a fé, uma experiência de fé, uma espiritualidade como primeiro ato. “Uma teologia que não se situe no contexto de uma experiência de fé corre o risco de converter-se numa espécie de metafísica religiosa, numa roda que gira no ar sem mover o carro” (Gustavo Gutiérrez).
Por isso: a experiência de fé vem em primeiro ato e a teologia vem em segundo ato. O ato primeiro é pressuposto de uma experiência de fé contextualizada por um compromisso exigente (teologia contextualizada); da opção pelos pobres (na teologia latino-americana de libertação), da luta contra o racismo da sociedade branca (na teologia negra da libertação); é uma militância nas lutas de libertação (teologia militante); é uma práxis (termo mais adequado do que prática ou ação) transformadora de torcidas relações de dependência e de dominação. Também a teologia feminista se articula como “segundo ato”, como reflexão que pressupõe como “primeiro ato” um compromisso e uma militância nos movimentos de emancipação e de libertação da mulher. É uma teologia que opera numa constante correlação de ação e reflexão. Letty Russel fala de “teologia da libertação em perspectiva feminista”; Elisabeth Schtissler Florenza apresenta a teologia feminista como “teologia crítica de libertação” para sublinhar, ao mesmo tempo, a função teórica de crítica frente à cultura e à práxis dominante na Igreja e na sociedade, mas também, frente à própria teologia, e conjuntamente o empenho prático, a militância nos movimentos de libertação da mulher.
A teologia feminista não é, pois, uma nova versão, revista e corrigida, da teologia da mulher, porque tem sua origem numa situação cultural e eclesial diferente e trabalha com uma metodologia baseada numa nova relação entre teoria e prática. Também não se pode falar de uma “teologia feminina”, expressão que aliás não é usada, e que, se fosse usada, serviria apenas para perpetuar estereótipos, que a teologia feminista procura pelo contrário demolir: uma “teologia feminina” exigiria como contrapartida a elaboração de uma “teologia masculina”, ao passo que a teologia feminista se auto-compreende como uma contribuição crítica para uma “teologia da integralidade”. Algumas teólogas e teólogos católicos falam também de uma “teologia ao feminino”, entendendo com esta expressão uma reflexão teológica elaborada por parte de mulheres e/ou a partir de mulheres, na medida em que levanta o tema da “questão feminina”: trata-se de uma abordagem ainda ligada à abordagem da teologia da mulher, e à qual falta o caráter da militância como “primeiro ato”, que é um dos elementos básicos da teologia da libertação em geral, e da teologia feminista em especial.
O termo teologia feminista é comparável, semanticamente, àquele da teologia negra: como a “teologia negra” é uma teologia da libertação dos negros, assim a teologia feminista é uma teologia da libertação das mulheres, uma reflexão elaborada e praticada por mulheres que militam no movimento de libertação da mulher, e, como tal, se inscreve no vasto e variado espaço das teologias da libertação.

4. PERSPECTIVAS E CORRENTES DA TEOLOGIA FEMINISTA        

A teologia feminista não é um bloco unitário: nela é possível identificar uma diversidade de perspectivas e uma variedade de correntes, indicamos apenas três:

4.1 A primeira corrente

Situa-se explicitamente no interior da tradição biblico-cristã e das suas instituições e busca exercitar uma função profética frente à sociedade, mas também e sobretudo frente à Igreja. É a corrente básica da teologia feminista, que realiza plenamente a caracterização geral, que foi dada acima, e as caracterizações temáticas que serão dadas a seguir. Ela compreende, para citar os nomes e as obras mais importantes: nos Estados Unidos, Letty Russell, Rosemary Radford Ruether, Phyllis Tribel, Elizabeth Schussier Florenza, Nelle Morton, Anne Carr; e na Europa, Karl Elizabeth Borresen, Catharina Helkes, Elisabeth Moltmann-Wendel e Marga Buhrig.

4.2 A segunda corrente

Compreende mulheres, que não se situam mais na corrente da tradição bíblico-cristã, mas se movem num espaço aberto, pós-cristão, em busca de novos caminhos para fazer a experiência de transcendência. Enquanto na primeira corrente o discurso permanece um discurso cristão, na segunda corrente ainda se faz um discurso religioso, que não é mais, pelo menos prevalentemente, cristão. Aqui se colocam Mary Daly, a partir de Beyond God the Father (1973) e Peggy Ann Way, que teorizou “a autoridade da possibilidade”: “Estou contente por não encontrar mais nenhuma segurança na Bíblia, na história, nos mitos e nas estruturas. Estou contente com o meu modo atual de compreender, que fundamenta a autoridade do meu ofício nas possibilidades do futuro e numa fé na qual eu experimento tão profundamente que nenhuma criatura poderá separar-me do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8:39), nem a Bíblia nem a história nem os mitos nem as estruturas ou a consciência masculina... Uma parte da autoridade do meu ofício está na possibilidade de libertar a Deus do abuso, que o liga a uma hermenêutica masculina, à história ou à estrutura gramatical”.
Quando a mulher decide abandonar o espaço da sociedade sexista e da Igreja patriarcal, ela experimenta uma vida nova, entra num espaço novo. Neste caminho as mulheres se unem numa liga, que Daly define como “Irmandade”, entendida geralmente como “o estar-junto” das mulheres num caminho de libertação. A irmandade é, antes de tudo, a “comunidade do êxodo” do espaço sexista, e por isso é uma liga “anti-mundo” , enquanto comporta o êxodo do velho mundo sexista; e, também, uma liga “anti-igreja”, enquanto comporta o abandono da Igreja, que é “a tumba das mulheres”. Mas a irmandade não é apenas, em sentido negativo, a comunidade de expatriadas e de exiladas espirituais; é também, de forma positiva, rede noosférica da libertação, comunidade da comunicação, aliança cósmica, enquanto exprime a chegada das mulheres a uma nova harmonia com o ser, com o próprio Eu, com o universo e com Deus como fonte energética do ser e da vida.

4.2.1 Crítica a contradição defendida por Daly

O teólogo americano John Cobb fez algumas observações críticas a Mary Daly que afirmou haver profunda contradição entre a lógica inerente ao feminismo radical e a lógica inerente ao sistema dos símbolos cristãos, a saber:
a) feminismo e cristianismo não são incompatíveis; o cristianismo é processo, é movimento e assim continua sendo; portanto, mantém a capacidade de corrigir-se e de renovar-se;
b) o movimento de libertação das mulheres nasceu num ambiente histórico fecundado pela tradição judaico-cristã: “Creio que o processo de protesto profético está inscrito no próprio coração da tradição”;
c) por fim, é difícil conservar a abertura à Transcendência, cortando completamente os pontos com a tradição religiosa, da qual se provém e sem o ancoradouro numa comunidade de fé.

4.3 A terceira corrente

Responde pelo nome de “religião de Deusa” ou de “espiritualidade da Deusa”. Se Simone de Beauvoir escreveu “O segundo Sexo” (1949), mais de vinte anos depois a escritora americana Elisabeth Gould-Davis escreveu “The First Sex” (1971) para sublinhar polemicamente que, se o sexo feminino é o segundo sexo, pode gloriar-se de ser, no plano da história das culturas, “o primeiro sexo”, na medida em que a cultura do matriarcado teria precedido a atual cultura do patriarcado. O livro de Gould-Davis é expressão da redescoberta da obra de Bachofen o historiador das culturas. Das Mutterrecht (1961), escrevendo sobre o direito materno e o matriarcado, onde se formula pela primeira vez a hipótese de uma ginocracia como estágio anterior à androcracia, ainda que na concepção evolucionista do historiador suiço a passagem do originário matriarcado para o posterior patriarcado assinale um progresso no plano cultural. Um grupo de feministas recupera a tese de Bachofen, afastando-se de sua concepção evolucionista e propõe a retomada de símbolos religiosos do matriarcado, como mais aptos a inspirar a espiritualidade da mulher. Nascendo desta forma a retomada do culto da Deusa. Segundo o estudo de Merlin Stone, When God Was a Woman (1976), o culto da Deusa sobreviveu até a era clássica da Grécia e de Roma, e foi totalmente supresso somente na época dos imperadores cristãos de Roma e de Bizâncio, que fecharam definitivamente os últimos templos da Deusa pelo ano de 500 d.C.  

5. A Busca Espiritual das Mulheres

Preocupada sobretudo com a busca espiritual das mulheres Carol Christ como se exprimiu no ensaio “Por Que as Mulheres Tem Necessidade da Deusa”: “O símbolo da deusa tem muito a oferecer às mulheres que lutam para liquidar aqueles estados de ânimo e aquelas motivações potentes, persuasivas e persistentes de desvalorização do poder feminino, de denegrição do corpo feminino, de desconfiança na vontade feminina, e de negação dos vínculos e do patrimônio cultural das mulheres, que foram gerados pela religião patriarcal. E visto que as mulheres estão lutando para criar uma cultura nova, na qual são celebrados o poder, os corpos, a vontade e os vínculos das mulheres, parece natural que volte à tona a Deusa como símbolo da renovada beleza, força e poder das mulheres”. Aqui são indicados claramente quatro motivos da volta da Deusa na nova espiritualidade feminista, e precisamente:
a) se os símbolos da religião patriarcal têm profundos efeitos psicológicos e políticos, e servem para confirmar o poder do homem, o símbolo da Deusa significa a afirmação do poder feminino como poder benéfico e criativo;
b) se a religião patriarcal denegriu as mulheres como mais carnais e mais ligadas aos ciclos da natureza em sua corporeidade, o símbolo da Deusa significa uma afirmação positiva e jubilosa do corpo feminino e dos seus ciclos;
c) se a religião patriarcal desvalorizou a vontade da mulher como passiva, remissiva e mais sugestionável ao mal, o símbolo da Deusa significa afirmação positiva da vontade feminina como energia que deve ser afirmada em harmonia com a energia e com a vontade dos outros seres;
d) além disso, o símbolo da Deusa serve para fortalecer os vínculos que intercorrem entre as mulheres e que se exprimem na irmandade.
A Deusa, aqui redescoberta, é vista por algumas feministas como divindade feminina que personifica o poder das mulheres, e que pode ser também invocada na oração e no ritual; mas, em geral, — como no texto citado de Carol Christ — é vista como símbolo do novo poder das mulheres; é o nome transcendente da reencontrada identidade no caminho da auto-transcendência.
Naomi Goldenberg que, na qualidade de psicanalista da escola de Jung, se interessa por examinar sonhos e fantasias das mulheres como fonte de revelação, julga que, quando as mulheres se revoltam e caem os símbolos religiosos patriarcais, acontece uma “mudança de deuses”: “Quando os Pais morrem, nós todas reencontramos em nosso interior”, e o símbolo da Deusa exprime uma religião “que traz força, a força divina ou sobrenatural, na pessoa”.
Inclui-se nessa corrente da “Golddess Religion”, mas com uma fisionomia própria, o movimento Wicca ou seja, da “bruxaria”, cujas principais representantes são Starhawk (pseudômino de Miriam Simos) e Zsuzsanna Budapest. A expressão Wicca deriva de uma antiga palavra inglesa Wicclan, que equivale a witchcraft, a “arte da bruxaria”, entendida como “arte das mulheres sábias e peritas”. Herdeiras da religião da Grande Mãe da época do matriarcado, as bruxas eram peritas na arte da medicina, conheciam os segredos das ervas e das poções, eram curandeiras e videntes. O movimento Wicca é a retomada desta “arte sábia” e dispõe de rituais — com meditação, exercícios de respiração, cânticos, danças, bênçãos e invocações à Deusa — orientados para o desenvolvimento da própria energia física, psíquica e emotiva e à busca de harmonia com os ritmos da natureza e com os outros seres. A propósito dos novos rituais feministas, escreve Zsuzsanna Budapest: “Os rituais (...) são uma forma de exorcizar o policial patriarcal que está em nós, de purificar a profundidade da mente e de enchê-la com imagens positivas da força e beleza das mulheres. Disto é símbolo a Deusa — do divino que existe nas mulheres e de tudo o que é feminino no universo”.
Com a segunda e a terceira corrente encontramo-nos, mais do que com a teologia feminista, com movimentos pós-cristãos de Espiritualidade Feminista, ainda que entre elas haja muitas diferenças. Frente a estes movimentos, a atitude da teologia feminista pode ser fixada assim:
a) antes de tudo, a teologia feminista utiliza análises e temas de reflexão, enquanto ela oferece uma linguagem e um imaginário elaborados na perspectiva da mulher onde estão em ação a sua capacidade de integração, seu senso da comunidade, sua proximidade com a natureza, e portanto sirvam para superar distorções patriarcais e para criar interdependência;
b) a teologia feminista, contudo, imputa a estas correntes da Espiritualidade Feminista de perderem o caráter de militância que caracteriza a teologia feminista como teologia da libertação, e de refugiar-se, romanticamente, nos espaços separados e intercomunicáveis do gino-centrismo, como acontece na filosofia do feminismo radical de Daly; ou, acriticamente, de voltar á cultura retro-datada do matriarcado e à religião da Deusa;
c) a teologia feminista, além disso, considera que não se pode saltar o espaço cristão; ela se situa, enquanto teologia, na linha profética da tradição cristã e pretende oferecer uma contribuição crítica para uma teologia de integralidade.
Para a teologia feminista, a irmandade não é “anti-Igreja”, não é a liga gino-centrista dos Eu; mas é um estar-junto das mulheres para um caminho de libertação, para uma Igreja que seja comunidade de mulheres e homens e para uma prática de reciprocidade.

6. INTERPRETAÇÃO NÃO SEXISTA DA BÍBLIA

A Bíblia ensina a submissão da mulher ao homem. Durante muito tempo as Igrejas a interpretaram em sentido desfavorável à mulher: “É chegada a hora para nós mulheres — exclamou entre rumorosos aplausos Mrs. Cutler na “Convenção Americana Para os Direitos da Mulher”, realizada em Filadélfia em 1854 — de ler e interpretar a Bíblia por nós mesmas”. Nasceria desta exigência um vasto projeto, já lembrado no início, de “A Bíblia da Mulher” (1895-1898). Os dois pressupostos dos quais partiam Elisabeth Cady Stanton e as suas colaboradoras — e que a teologia feminista ainda considera válidos — eram os seguintes: é necessária uma obra de revisão da interpretação bíblica tradicional, porque:
a) a Bíblia é usada como arma política contra a emancipação da mulher: a Bíblia é um livro político; e
b) este uso contra a mulher pode encontrar uma justificação no fato de que a própria Bíblia é um livro patriarcal.
É um campo de pesquisa que ainda hoje permanece muito ativo e que se move dentro do programa de Despatriarcalizar a Inrterpretação bíblica segundo a formulação da estudiosa feminista do Antigo Testamento Phillis Trible, ou de Interpretação não sexista da Bíblia segundo a formulação de Letty Russell.

6.1 Interpretação Patriarcal à Luz de Gênesis

O lugar clássico da interpretação patriarcal é Gênesis 2-3, enquanto o texto da fonte sacerdotal de Gênesis 1 reza: “homem e mulher os criou” (Gn 1:27), o texto da mais antiga fonte javista de Gênesis 2-3 contém o relato de Adão e Eva, segundo o qual a mulher é criada em segundo lugar  (Gn 2,18), formada por uma constela de Adão (Gn 2,22) e é a primeira a pecar levando o próprio Adão ao pecado (Gn 3,12-13). Enquanto o relato de Gênesis 1 afirma com sobriedade teológica a criaturalidade do homem e da mulher e a sua semelhança com Deus, no relato do Gênesis 2-3 é fácil deduzir a inferioridade ética da mulher: Eva criada em segundo lugar foi a primeira a pecar. Com referência ao texto de Gênesis 2, Theodor Relk escreveu em “Psicanálise da Bíblia”: “O relato bíblico do nascimento de Eva é a brincadeira mais pesada que os milênios dirigiram à mulher”.

6.2 Os Argumentos a Partir das Epístolas Paulinas

O epistolário paulino argumenta em várias ocasiões (I Co 11,1-16; 14,34-35; Ef 5,21-33; I Tm 2,9-15) a partir do relato das origens do Gênesis 2-3, afirmando a submissão da mulher ao homem. Impõe-se um preciso trabalho hermenêutico deste e de outros textos — os quais contribuem para configurar a Bíblia hebraico-cristã também como documento patriarcal — que é desenvolvido de maneira diversa por homens e mulheres biblistas.

6.3 A Interpretação Feminista da Bíblia

A teologia feminista exclui, dois tipos de interpretação bíblica, aparentados no método, mas contrapostos nos resultados, como são a interpretação antifeminista e a interpretação feminista pós-cristã. A interpretação bíblica antifeminista, por longo tempo praticada e que em parte ainda subsiste, assume os dados bíblicos relativos à mulher, que interpreta na linha da interpretação patrística e escolástica, chegando a afirmar a inferioridade, ou a submissão da mulher com relação ao homem. A interpretação bíblica feminista pós-cristã também parte de dados bíblicos, como foram lidos pela tradição eclesiástica, mas chega à conclusão de que a Bíblia, ensinando a subordinação-sujeição da mulher ao homem, é irremediavelmente patriarcal. Conclusões contrapostas — uma tradicional e outra pós-cristã — mas aparentadas no método fundamentalista de leitura da Bíblia, onde o texto é a mensagem.
A teologia feminista — na linha da mais esclarecida exegese bíblica — em geral distingue entre valor teológico e o modo da anunciação que é historicamente condicionado. Em particular, Letty Russell distingue entre a Tradição como parádosis, como ação dinâmica e libertadora de Deus na história, como Escritura, do veículo das tradições históricas, como “escrito” historicamente condicionado: “A Tradição não é um bloco de conteúdos a serem conservados acuradamente por parte de  hierarquias autorizadas, mas uma ação de Deus que deve ser transmitida aos outros de todo sexo e raça”. Rosemary Radford Ruether identifica na Bíblia a linha das tradições profético-messiânicas e as separa de outras tradições não utilizáveis. Em resumo, a tradição utilizável para o feminismo na Bíblia não são particulares afirmações sobre a libertação das mulheres, mas antes o modelo crítico do pensamento profético”. Phyllis Trible introduz a distinção entre fé bíblica e religião bíblica e mostra a presença de um “princípio despatriarcalizante em ação na Bíblia. Despatriarcalização não é uma operação que o exegeta realiza sobre o texto. É uma operação hermenêutica que age no interior da própria Bíblia. Nós expomos, nós não impomos”.

6.4 Crítica ao Modelo Interpretativo

A neo-testamentarista Elisabeth Schussler Fiorenza critica em seu vasto estudo in Memorian of Her (1983) esse modelo interpretativo que, as suas variantes, seria reconduzível a um “modelo neo-ortodoxo”, para o qual o texto não é a mensagem, mas apenas o continente da mensagem; a mensagem aparece, neste modelo hermenêutico, como uma espécie de essência a-histórica, como uma espécie de núcleo exprimivel em termos de libertação e separável do texto patriarcal. Enquanto para as feministas pós-cristãs (segunda e terceira corrente) texto e mensagem bíblicos são e permanecem patriarcais e portanto não mais utilizáveis, para as feministas que praticam na leitura da Bíblica o “modelo neo-ortodoxo”, só o texto é patriarcal, a mensagem é exprimível em termos de libertação. Fiorenza propõe, pelo contrário, uma “hermenêutica critica feminista”, que não parte de textos patriarcais para chegar a um núcleo essencial de libertação, a-histórico e separável, mas parte de textos patriarcais para chegar aos seus contextos históricos e sociais em vista de uma reconstrução teológica feminista das origens cristãs. Trata-se de introduzir um “novo paradigma” (Thomas Kuhn), que é chamado “hermenêutica crítica feminista” enquanto:
a) adota o método histórico-crítico na leitura dos textos;
b) mas, ao mesmo tempo, parte também das exigências da teologia feminista da libertação, enquanto quer praticar uma leitura militante da Bíblia, que recupere “a memória dela”.

6.5 A Mulher nas Origens Cristãs

No início do cristianismo, Fiorenza identificou dois movimentos: o movimento de renovação iniciado por Jesus na Palestina em ambiente judaico e o movimento messiânico cristão primitivo iniciado antes de Paulo em ambiente helenista, tendo como centro a cosmopolita Antioquia. Ambos chamavam a um “discípulato de iguais” e reuniam “comunidades de iguais”, “comunidades inclusivas”, onde eram até privilegiados os excluídos da sociedade (mulheres inclusive): eram os movimentos igualitários. No movimento missionário cristão primitivo também as mulheres desempenhavam um papel de missionárias e de guias das comunidades, como aparece em Rm 16, 1-16, onde Febe é chamada diákonos; Prisca, synergós (colaboradora); e Júnias, apóstolos.
Pertenceria ao movimento cristão primitivo o texto de Gl 3,28 (Não há mais judeu, nem grego; não há mais nem escravo, nem homem livre; não há mais nem homem nem mulher; todos vós, realmente, sois um só em Cristo Jesus”), que a teologia feminista faz valer, por sua visão de igualdade, totalidade e liberdade, como “a magna charta do feminismo cristão”. A análise crítica leva a sustentar que Gl 3,26-28 é uma confissão batismal pré-paulina que Paulo cita para indicar a nova realidade da fé frente à lei: “Gl 3,28 não é uma ‘formulação de ponta’ paulina, ou uma posição avançado própria de Paulo, ou uma afirmação ocasional isolada de Paulo, que permaneceria como que submersa por outras passagens subordinacionistas Gl 3,28 é uma expressão-chave, não da teologia paulina, mas da auto-compreensão teológica do movimento missionário cristão que teve um impacto histórico de vasto alcance”. Mas, enquanto a exegese tradicional geralmente interpreta Gl 3,28 em sentido espiritualista como igualdade da alma do homem e da mulher diante de Deus, ou em sentido futurista como afirmação de igualdade do homem e da mulher na nova criação escatológica, a teologia feminista sublinham o caráter “performativo” (Wayne Meeks) da antiga afirmação batismal: “Já é tempo — escrevem Jurgen e Elisabeth Moltmann — que estas palavras sejam traduzidas em ação na Igreja e na sociedade. A mensagem relações de domínio. Na nova comunidade, em que o batismo insere a pessoa, não vigora a estrutura do matrimônio patriarcal, que subordina a mulher ao homem; o bimordismo sexual não se torna dimorfismo sexual; todos são membros da mesma família de Deus como irmãos e irmãs. Por esta visão e por esta prática, as primeiras comunidades cristãs se apresentam como “comunidades alternativas” no meio do mundo greco-romano, comunidades que por sua visão e prática de igualdade entravam em conflito com uma sociedade estruturada por privilégios e discriminações.
Mas na reconstrução de Fiorenza a conduta de Paulo se apresenta ambígua: de um lado, afirma a igualdade e a liberdade; de outro, estabelece limites à participação das mulheres nas assembléias cristãs, como aparece particularmente em 1 Cor 11,1-16; 14, 34-35. Fica assim aberta a porta a ulteriores desenvolvimentos em sentido patriarcal. Na carta aos Colossenses e aos Efésios assiste-se à introdução, através do código familiar da ordem patriarcal nas famílias cristãs com a submissão das mulheres ao maridos (Ef 5,21-33); nas cartas Pastorais a ordem patriarcal é introduzida na própria estrutura da comunidade cristã e do ministério (I Tm 2,9-15). O “discipulato de iguais” é assim progressivamente espiritualizado e restrito à alma. Ainda não é uma prática geral, como testemunham o evangelho de Marcos (contemporâneo da Carta aos Colossenses) e o Evangelho de João (contemporâneo das Pastorais), que sublinham o serviço e o amor como centro do mistério de Jesus e como exigência principal do discipulato, mas será a linha patriarcal, e não aquela igualitária — a mais antiga e originária que pode apelar para a práxis do movimento de Jesus e do primeiro movimento missionário — que se afirmará e terá êxito definitivo no século IV. “E contudo este ‘êxito’ não pode ser justificado teologicamente, porque não pode apelar para a autoridade de Jesus na sua própria práxis cristã”.

7. A HERMENÊUTICA BÍBLICA FEMINISTA

A hermenêutica bíblica feminista comporta um trabalho múltiplo, que exige se dê atenção:
a) aos textos patriarcais, onde o influxo patriarcal chega até ao conteúdo das afirmações teológicas; a própria teologia do matrimônio em Ef 5,21-23 ´´e expressa em termos de subordinação da mulher ao homem;
b) à interpretação patriarcal dos textos dada pela tradição eclesiástica;
c) à história da transmissão do texto e das suas traduções; é sabido — para dar apenas um exemplo — que em Rm 16,7 Paulo saúda como “apóstolos” Andronico e Júnias; mas, a partir do século XIV edições e traduções grafaram Júnios em vez de Júnias, porque não viam como o Novo Testamento podia dar a uma mulher o nome de apóstolos.

CONCLUSÃO

A hermenêutica bíblica feminista apresenta dois modelos hermenêuticos: o primeiro identifica um núcleo ou mensagem de libertação, que é preciso separar do revestimento histórico patriarcal do texto e retomar para torná-lo operante na prática atual; o segundo, vê em ação nos escritos do Novo Testamento um lento e progressivo processo de patriarcalização das estruturas da comunidade: trata-se, então, através de uma hermenêutica crítica, de redescobrir o estrato mais antigo e de tomar contato com a teologia e com a prática das primeiras comunidades cristãs para corrigir sucessivas distorções na teoria e na prática, para reconstituir um elo de igualdade na comunidade.