quinta-feira, 19 de abril de 2012

SIMPLESMENTE LIBERDADE !!!!!!!!!!!!!!

O que é ser livre? Como o homem pode ser livre? Seria uma possibilidade utópica?
Mal entendida, negada, almejada, sobretudo usurpada a liberdade sempre foi uma questão fundamental para a humanidade.
"Liberdade, essa palavra
Que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
E ninguém que não entenda"
Cecília Meireles

Há sempre questões, dúvidas e impossibilidades. Como serei livre com o pai que tenho? ...Ah! Quando eu me casar!... Depois do casamento pode ainda não sentir-se livre e novamente buscar soluções para iludir-se. Por que o ser humano tão freqüentemente é infiel? Será que aí julga-se livre? Estará ele realmente livre?

Liberdade não implica em falta de educação, ninguém precisa ser inconveniente ao meio para conseguir ser livre, mas deve impedir que o meio seja inconveniente a si para roubar-lhe a liberdade.
O homem sempre se fez prisioneiro de angústias, medos, culpas, solidão, impossibilidade de agir, padrões pré determinados, doutrinas, normas, dogmas etc. Pode então libertar-se buscando o autoconhecimento e realizando-se. Tornando-se responsável por suas escolhas.
Para Sartre o homem é a sua liberdade e está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto é livre, uma vez que foi lançado no mundo é responsável por tudo que faz.
Segundo Jaspers, só nos momentos em que exerço minha liberdade é que sou plenamente eu mesmo. Assim será o indivíduo autêntico, autônomo, autodeterminado.
Ser e fazer implicam em liberdade. A condição primordial da ação é a liberdade. Liberdade é essencialmente capacidade de escolha. Onde não existe escolha, não há liberdade. O homem faz escolhas da manhã à noite e se responsabiliza por elas assumindo seus riscos (vitórias ou derrotas). Escolhe roupas, amigos, amores, filmes, músicas, profissões... A escolha sempre supõe duas ou mais alternativas; com uma só opção não existe escolha nem liberdade.
As escolhas nem sempre são fáceis e simples. Escolher é optar por uma alternativa e renunciar à outra ou às outras.
Não existe liberdade zero ou nula. Por mais escravizada que se ache uma pessoa, sempre lhe sobra algum poder de escolha. Também não há liberdade infinita, ninguém pode escolher tudo.
Na facticidade somos limitados, determinados. Um ótimo exemplo nos é dado por Luís Fernando Veríssimo quando descreve: "poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas, mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar no avião. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos".
Contra o senso comum "ser-livre" não significa "obter o que se quis", mas sim "determinar-se por si mesmo a querer" (no sentido de escolher). O êxito não importa em absoluto à liberdade. O conceito técnico e filosófico de liberdade significa: autonomia de escolha, não fazendo distinção entre intenção e ato.

O ato livre é, necessariamente, um ato pelo qual se deve responder e responsabilizar-se. Porque sou livre tenho que assumir as conseqüências de minhas ações e omissões.
Os animais irracionais não são livres, não são responsáveis pelo que fazem ou deixam de fazer. Ninguém pode condenar um cavalo que lhe deu um coice. O animal não faz o que quer e sim o que precisa ou o que se encontra determinado pelo instinto de sobrevivência para que continue existindo.

O próprio vôo de um pássaro está sujeito às leis da Física. Kant brincava com essa idéia, imaginando uma pomba indignada contra a resistência do ar que a impediria de voar mais depressa. Na verdade, argumenta, é justamente essa resistência que lhe serve de suporte, pois seria impossível voar no vácuo.
"Não me apontes o caminho,
o rumo certo pra chegar ao cimo.
Deixa-me encontrá-lo para que seja
meu...
Não me reveles a mais brilhante estrela,
Aquela que te guia.
Eu buscarei a minha...

Não me estendas a mão quando eu cair.
Em tempo certo, em hora exata,
Eu ficarei de pé...

Não te apiedes de mim.
É minha estrada, é minha estrela,
É meu destino.

Deixa apenas que eu seja.
Sem ti..."
Eliette Ferreira

O homem para Sartre não pode ser ora livre, ora escravo. Ele é totalmente e sempre livre, ou não o é.

A liberdade não é alguma coisa que é dada, mas resulta de um projeto de ação. É uma árdua tarefa cujos desafios nem sempre são suportados pelo homem, daí resultando os riscos de perda de liberdade pelo homem que se acomoda não lutando para obtê-la.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O PRAZER NEGATIVO.....SOMOS DOMADORES DE MONSTROS !!!!!!!!!!!!!

Que jogue a primeira pedra quem nunca se sentiu uma pessoa horrível um dia desses!

Não importa o quanto sejamos bons, conscientes ou sábios, é inevitável reconhecer que todos temos, dentro de nós, uma fera indomada, má e sangrenta que de vez em quando sai de sua caverna, cheirando a enxofre, e ameaça destruir nossa vida pacata e cheirosa. 
Estou falando de nosso 'eu inferior' . "Rex", para os íntimos!

Queira ou não, existe dentro de você ( E DE TODOS NÓS!) uma parte feita dos piores sentimentos humanos: ciúme, inveja, raiva, ódio, medo, tristeza, e por aí vai. 

Quer ver? 

É o Rex que faz com que você pense coisas horríveis de vez em quando, que instiga você a dizer ou fazer coisas medonhas, que torna você duro e inflexível. É o Rex que embala seu coração em papel alumínio, e faz isso tão bem que você seria capaz de jurar que não existe nada batendo dentro do seu peito.
Assustador, eu sei.

Para que a leitura fique mais rica, tente lembrar agora de uma situação em que você esteve bem perto desse monstro que mora dentro de você. Pode ser um dia em que você tenha de fato se descontrolado e brigado com alguém, por exemplo. Lembrou? Agora tente perceber como você se "sentiu" naquele dia!

Sentimos prazer em ser 'maus'?

Ao fazer esse simples exercício, você pode aprender muito sobre o 'eu inferior'. A primeira coisa que poderá perceber é que o Rex é um "Eu" muito poderoso. Ele nos traz grandes emoções, nos deixa cheios de vida. Sim, é verdade! Pense nas vezes em que você entrou em uma discussão, ou ficou pensando em brigar com uma pessoa e dizer coisas horríveis a ela. Perceba como isso lhe trouxe um certo prazer. 

Sim, sentimos certo prazer em sermos "maus", tanto que é muito difícil fazer alguém parar de brigar. A pessoa não quer parar porque está sentindo um prazer, que podemos chamar de "Prazer Negativo". O prazer negativo é um prazer momentâneo, que por algum tempo nos alimenta, MAS NÃO É UM PRAZER REAL. O prazer negativo, como o prazer que se pode obter pelo uso de algum tipo de droga, simplesmente não dura. Depois que passa a briga, acabamos por nos sentir mal, por nos dar conta do quanto de destruição causamos aos outros e a nós mesmos. A pergunta transformadora é: 

- Será que valeu a pena?

Acho que você já percebeu que quando deixa livre o seu 'eu inferior', quando permite que o Rex saia por aí atacando as pessoas, atrai uma grande quantidade de caos e destruição na sua direção. 

Podemos trancar o monstro?

Algumas pessoas tem tanto medo do que esse monstro possa causar que decidem trancá-lo em uma caverna escura e fingir que ele não existe. São aquelas pessoas que dizem NUNCA sentir raiva, ciúme, ódio, inveja e nenhum desses sentimentos. São pessoas que querem, a todo custo, ser boas e amorosas. Quando as pessoas agem assim, duas coisas acontecem. Para explicar a primeira delas, preciso dizer que nos seres humanos os sentimentos estão inevitavelmente ligados uns aos outros. 

Logo, se eu não quiser entrar em contato com a minha raiva, ou tristeza e as trancar em um quarto escuro no meu inconsciente, isso significa que eu aprisionarei com elas a minha alegria, o amor e os mais belos sentimentos. Talvez eu não sinta raiva, mas também não serei capaz de sorrir, de acreditar na vida ou de amar. Vou virar um tipo de zumbi sem sentimentos. Inofensivo, talvez, como aqueles zumbis dos filmes, que mal se agüentam em pé! Mas sem vida... (Triste não é?)

Outra coisa que acontece é que ao fazer isso eu me desconecto do meu poder. Sim, porque o 'eu inferior' está diretamente ligado a uma preciosa fonte de energia de vida, chamada poder. O 'eu inferior', com suas distorções, acaba usando esse poder de forma também distorcida, exercendo-o sobre os outros e causando uma série de males. Mas quando aceitamos e curamos o 'eu inferior', temos acesso a um poder livre de distorções, o poder de sermos quem somos, de nos sentirmos vivos, vibrantes, cheios de energia. Nós precisamos desse poder positivo para criar a nossa vida, para alcançar nossos sonhos, para viver intensamente, apaixonadamente. (Com paixão = compaixão).

Bem, voltamos ao nosso dilema. O que fazer com o Rex ??? 
Se não podemos soltá-lo (uma vez que ele destruirá o que mais amamos) nem prendê-lo (com o risco de virarmos zumbis sem poder) o que fazer?

Ouça, não há nada de errado com o nosso desejo de sermos pessoas melhores, mas para isso precisamos ACEITAR O PONTO ONDE ESTAMOS, aceitar todos esses sentimentos sombrios que se movem furtivamente nas cavernas de nosso inconsciente. Precisamos aceitar e nos responsabilizar pelo Rex e por sua cura.

Somos domadores de monstros!

Logo, na próxima vez em que sentir um cheiro de enxofre vindo de dentro de você, e perceber seu 'eu inferior'. Na próxima vez que senti-lo presente, saiba que essa será a sua chance de exercitar suas habilidades, de domar seu monstro. Seja carinhoso com você mesmo, não se julgue por estar sentindo algo tão horrível assim. Respire fundo e aceite o sentimento, porque é ISSO É APENAS UM SENTIMENTO QUE VAI PASSAR.

Repito, não importa a intensidade da raiva, da inveja, do medo ou do ciúme, é "apenas" um sentimento. Respire fundo e repita mentalmente: 

- Ok, estou agora sentindo muito....................! (complete com o seu sentimento).

Fique com isso. Não despeje seu lixo sobre ninguém. Afaste-se se for necessário e imagine que a sua respiração seja um tipo de bálsamo curador para esse sentimento. Continue respirando e imagine o ar levando aceitação e cura na direção do monstro. Assuma a responsabilidade de transformar esse sentimento, porque NÃO IMPORTA O QUE OS OUTROS TENHAM FEITO A VOCÊ, CURAR ESSE SENTIMENTO É TAREFA SUA. 






sexta-feira, 13 de abril de 2012

Acrania x Anacefilia

É muito importante que destaquemos esse acontecimento, pois é uma vitória sem tamanho para as mulheres, e um grande passo à frente para uma sociedade mais justa. O estado laico está começando a se impor, e nós somos os responsáveis para que isso continue a acontecer. Temos que mostrar que o grupo de pessoas inteligentes e racionais supera os grupos religiosos que doutrinam seus seguidores de forma ignorante e estúpida, com pensamentos que beiram o fascismo. 

Havia comentado com alguns amigos que não entendia o por que da igreja se manifestar tão forte contra essa decisão, levando em consideração que os fetos nascerão mortos, não servindo para aumentar o número de seguidores que alimentam as contas gordas de suas instituições religiosas. Há quem fale em crença, mas me entristece pensar que em pleno século 21 exista no Brasil uma crença que convence as pessoas que elas tem controle sobre o corpo das mulheres, a ponto de querer forçá-las a carregar dentro de si a tristeza de um filho que dificilmente viverá, durante toda gestação, ou se o faz não tera qualidade de vida. 

Mais surpreendente ainda, são os pais da menina Vitória, a criança acrania, que estão usando ela para fazer campanha contra o aborto de bebês anencéfalos. UM BEBÊ ACRANIO NÃO É UM BEBE ANENCÉFALO! O bebê acranio possui uma má formação do crânio, o bebê anencéfalo total não possui cérebro, ou seja, nasce em estado vegetativo e morre em seguida. VERGONHA para os pais da vitória, que estão usando a filha para desvirtuar um debate muito sério. Até porque, mesmo com a aprovação da lei, eles não seriam obrigados a fazer o aborto da criança, mas teriam o direito de escolha, caso o feto fosse diagnosticado como anencéfalo total.

CUIDADO COM O QUE DIZEM

OS MANIPULADORES RELIGIOSOS ESTÃO A SOLTA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


paporeto7.blogspot.com

quarta-feira, 4 de abril de 2012

SEJAMOS UM SÓ

Sejamos nós cristãos católicos, ortodoxos, evangélicos... judeus, islâmicos, budistas, hinduístas, agnósticos, ateus...curvemo-nos todos diante do Mistério, ou da possibilidade do Mistério: o Deus-homem vem ao Mundo e se dá ao Sacrifício, ao Sacro-Ofício, morre em seu corpo de carne como o nosso e ressuscita neste mesmo corpo, para nos dar o Testemunho da Imortalidade.        Lembremo-nos do verso imortal de Fernando Pessoa: "O Mito é o nada que é tudo" e, seja qual for a nossa crença ou o tamanho da nossa descrença, coloquemo-nos todos juntos, em comunhão nestes dias de irrupção do Tempo Sagrado no interior do tempo profano. Deixemo-nos tocar, deixemo-nos impregnar. Se a nossa descrença já impregnou todas as coisas, se nos sentimos impermeáveis a toda e a qualquer Revelação, a qualquer Utopia de cunho sagrado ou humano, ainda assim suspendamos nossos juízos por um instante, para comungarmos a Grandeza anunciada nestes dias, a da morte e a da ressurreição do homem-Deus.        Incontáveis de nós estamos morrendo nas guerras, nas guerrilhas, nas emboscadas urbanas, nas emboscadas dentro dos próprios lares; incontáveis de nós estamos morrendo em cidades e nos campos devastados pela fome e pelas doenças;  incontáveis de nós estamos morrendo de inanição emocional, em castelos de demasiado precárias muralhas; incontáveis de nós estamos morrendo órfãos de nós mesmos, reféns da terrível solidão de não mais nos reconhecermos nos pensamentos e nos atos de cada dia. Há infinitos modos de morrer, de se matar e de matar e a nossa morada, a Terra, está infestada por eles.        Por um instante que seja, sintamo-nos Um Só, unidos através da miséria e da riqueza da nossa condição de seres humanos que seguem carregando a certeza ou a nostalgia do Deus dentro, ao redor e além de toda a nossa infinita pequenez. Sintamo-nos Um, com toda a nossa Esperança tornada ato, nossa Esperança impossível de ser extirpada, semente bendita para sempre, semente sempre-viva replantada, desde todo o Sempre, apesar da legião de mortos no mundo e das injustiças de toda espécie, que vêm se perpetuando ao longo dos milênios.

sábado, 31 de março de 2012

A Homossexualidade e o Cristão


A maioria dos cristãos ainda sente desconforto com relação à homossexualidade. Mesmo homossexuais cristãos freqüentemente compartilham esta inquietação, porque todos temos sido educados na mesma tradição cristã. Há muitas causas para este desconforto, mas a cause que parece mais saliente na mente de todos é a convicção de que a Bíblia condena a homossexualidade em si mesma e em todas as suas formas de manifestação.
Uma lenta mudança começa a ocorrer nos dias atuais, felizmente. Alguns cristãos, enquanto mantêm a atitude tradicional, têm começado a admitir que não é necessário, na sociedade atual, punir os homossexuais pelo comportamento que é permissível aos heterossexuais. Com base nisso, muitas comunidades cristãs têm feito manifestações formais de apoio ao direito de pessoas homossexuais à proteção contra a discriminação, principalmente na Europa e na América do Norte.
Alguns cristãos têm ido além disso e reconhecido que a hostilidade com a qual algumas pessoas têm atacado e condenado atos homossexuais e pessoas homossexuais é totalmente injustificado. É importante atentar para a relativa importância dada ao comportamento homossexual na Bíblia e, especialmente, observar as atitudes de um cristão quando convive com outros seres humanos, sejam eles homo ou heterossexuais. Alguns teólogos e um número de homossexuais cristãos trabalhando a partir de um crescente entendimento dos textos bíblicos, chegaram à conclusão de que a Bíblia não exclui os homossexuais da fraternidade cristã, dentro de limites análogos àqueles aplicados aos heterossexuais.
A Bíblia menciona o comportamento homossexual, a partir das interpretações de seus tradutores, em termos extremamente negativos, num punhado de versos amplamente espalhados, mas pesquisas modernas têm aumentado consideravelmente a dúvida evidente sobre a interpretação tradicional destas passagens - uma interpretação que tem trazido trágicas conseqüências para homossexuais através de quase toda a história cristã. O propósito, aqui, é examinar esta evidência, junto com a luz que a ciência tem derramado sobre o desenvolvimento psico-social, na esperança de que ela guiará para uma avaliação mais perfeita das escrituras.
A maioria das pessoas cresce desejando e procurando um relacionamento íntimo e amoroso com uma pessoa do sexo oposto. Homossexuais, por outro lado, são aqueles que descobriram que seus desejos convergem em direção à pessoas do mesmo sexo. Como e porque esta variante ocorre ainda não é possível explicar tendo, provavelmente, conseqüência a partir de  uma ampla ordem de fatores, alguns dos quais são ambientais e alguns, possivelmente, hereditários ou físicos. O que é importante, entretanto, do ponto de vista do pecado, é que a maioria dos homossexuais não tem recordação de jamais terem escolhido esta orientação sexual, tanto quanto os heterossexuais têm consciência de ter escolhido desejar o sexo oposto. Trata-se apenas de uma inclinação emocional, uma parte integrante da personalidade. E estes indivíduos sentem que nada na terra jamais mudará isto, assim como os heterossexuais não podem se imaginar transformando-se em homossexuais.
A verdade é que, ao que tudo indica, a sexualidade humana é livre e solta, e que um interesse emocional se desenvolve muito cedo na vida e que este interesse, então, vem cada vez mais à tona, à medida que a puberdade e a adolescência afloram certas fantasias e determinados comportamentos sexuais.
A razão, conseqüentemente, do porquê dos homossexuais procurarem contato íntimo com indivíduos de seu próprio sexo não reside no fato de serem pervertidos ou luxuriosos, mas sim porque sua natureza íntima - a natureza que Deus lhes conferiu - não lhes permite viver o padrão de vida heterossexual. Para os homossexuais, tentar viver uma vida tipicamente heterossexual é viver dentro de uma mentira, um atentado moral e espiritual contra seu parceiro e contra si mesmos. Tal relacionamento não satisfaz a função de que deve ser alcançada por todo tipo de envolvimento entre duas pessoas: satisfação, alegria, prazer, respeito e afeição. Diferentemente dos heterossexuais, os homossexuais se sentem completos apenas por uma pessoa do mesmo sexo.
Isto não significa que homossexuais não possam se envolver em práticas sexuais de cunho heterossexual. Muitos podem praticar sexo heterossexual, assim como muitos heterossexuais são capazes de se envolver em atividades homossexuais. Mas se tiverem a oportunidade de escolher, preferirão um parceiro do mesmo sexo, não por mera perversão, mas porque somente um parceiro do mesmo sexo os satisfaz emocionalmente. Para que aja pecado - ou seja lá como chamam os religiosos - deve haver uma possibilidade de escolha moral. Onde não há escolha não pode haver pecado. Assim, se a orientação sexual não é uma questão de escolha do indivíduo, não pode ser pecado ser homossexual, da mesma forma que não é pecado ser heterossexual. Se a homossexualidade - a orientação - é um pecado, o comportamento heterossexual também seria.
Na verdade, os cristãos heterossexuais devem ter cuidado para não agirem da mesma forma que os Fariseus do passado, legando para seu semelhante um fardo que eles próprios não teriam como suportar.
Em síntese, a Bíblia parece, claramente condenar apenas 03 coisas com relação à homossexualidade:
01. o estupro homossexual;
02. o ritual envolvendo prostituição homossexual e que fazia parte do culto da fertilidade dos cananeus e que alguns judeus passaram a idolatrar antes da Lei de Levíticus;
03. luxúria e comportamento homossexual da parte de indivíduos heterossexuais. Sobre o tema da homossexualidade como uma orientação, e sobre o comportamento consensual de pessoas que possuem esta orientação, a Bíblia faz completo silêncio. A orientação em si era, aparentemente, desconhecida ou pelo menos não reconhecida pelos autores bíblicos. Somente a partir de 1890 a ciência da psicologia começou a reconhecer a homossexualidade como uma entidade distinta.
A visão bíblica da homossexualidade pode depender, enormemente, da visão particular da Escritura. Para excluir a homossexualidade da cristandade, algumas pessoas utilizam a "prova textual". É a mesma técnica utilizada no passado para sustentar outras formas de intolerância, como por exemplo, a escravidão. Citações da Bíblia são usadas ainda hoje para justificar a discriminação contra as mulheres e minorais raciais. A prova textual é o uso de uma Escritura que parece demonstrar um certo tópico como prova da opinião de Deus concernente àquele tema. Entretanto, três coisas são ignoradas na prova textual:
- o contexto cultural da escritural original;
- o sentido original da língua da época em que foi escrita;
- as mensagem completas que circundam o texto e aparecem através do corpo completo da Bíblia.
Devemos conhecer o contexto social no qual as palavras do texto foram escritas, qual era a sociedade para a qual o texto foi escrito, qual a sua cultura, que situação específica originou o texto, como o texto relata a completa visão do autor, como ele é visto à luz de toda a mensagem bíblica, como se relaciona com todos os demais textos, se ocorrem  divergências entre os autores etc.
Muitos, num certo sentido, interpretam a Bíblia à luz da linguagem e do tempo no qual ela foi escrita. Por exemplo, a Bíblia diz "olho por olho, dente por dente", ou "se tua mão direita te serve de escândalo, corta-a e lança-a fora de ti"(Mateus 5:39-30). Nos dias atuais é muito difícil encontramos pessoas de um olho só ou pregadores de um braço só reforçando estes preceitos.

sexta-feira, 30 de março de 2012

AFINAL QUE M É ESSA?????????

O Estado através do poder político (Politica com P maiúsculo não é um poder), a reboque do poder econômico verticaliza asdesigualdades.
Estados ao longo do tempo apenas tem se prestado apregar o nacionalismo e o imperialismo que têm contribuido ao longo dos séculos com as guerras fratricidas.
Governos apenas cuidam de preservar e acomodar o poder da elite  das classes dirigentes dos quais eles se compõem e que visam somente aumentar suas riquezas à custa da pobreza da maioria. E quando falo de elites dirigente refiro-me à nata da classe AAA+(Donos das grandes corporações, das grandes empreiteiras a serviço dos conglomerados financeiros) e não a remediada classe A e suas subseqüentes congêneres B,C,D e E.
Governo e Estado são apenas instrumentos do capital financeiro corporativo sedento que coisifica a humanidade.
Capital financeiro cuja alma é o dinheiro e cujo espírito é a mercadoria, formulados outrora enquanto arautos do desenvolvimento da sociedade industrial fomentadora do capitalista , mas realmente criados para servir de fetiche, substituto dos totens primordiais,  e que hoje mais que progresso, significam o retrocesso na emancipação humana sob os augúrios da benção da lógica do mercadoe do lucro insaciável.
A saída é a utopia do impossível a partir do possível a ser feito.
A via de saída é humanizarmo-nos através da poesia possível, poesia que em grego significa criar, fazer.
E em nos capacitando poetas da utopia do mundo das idéias justas, nos permitamos ver o mundo com os olhos erguidos da justiça social, da fraternidade incondicional e da real igualdade. E ao erguer os olhos possamos arrancá-los de nossos próprios umbigos.
 Movermo-nos em direção ao planeta agonizante mudando nossos hábitos, buscando o decrescimento do necessário e suficiente, do reutilizar, reciclar, do consumo não automatizado, e compreender que por detrás do tal desenvolvimento sustentável ou da “economia verde” que neo-políticos e neo-ambientalistas e empresas “verdes” e os “cristãos novos da ecologia” pregam aos quatro ventos, se esconde o aprofundamento da mercantilização da natureza,com a precificação e privatização dos bens comuns além da constituição de novos mercados, sugando as reservas naturais, apostando no aprofundamento do capitalismo como remédio da crise da civilização criada pelo próprio capital.
Urge dizer não ao deus-dinheiro e ao fetiche da mercadoria e acreditar que outro mundo é possível, que existe outra forma devida plena e abundante ainda aqui mesmo nesta nossa casa comum, mesmo cientesde que, assim como a morte, nunca poderemos eliminar os diferentes e as diferenças.

terça-feira, 20 de março de 2012

TRAIÇÃO E TODA A DIALÉTICA DA COISA

Em um dos mais lidos matutinos cariocas a surpreendente notícia começava assim:

“O conteúdo de um manuscrito de 1700 anos encontrado em 1978 numa caverna do deserto no Egito foi revelado ontem dando um novo papel para Judas Iscariotes: ele não teria traído Jesus Cristo. Ao contrário, como seu discípulo mais fiel, teria seguido as instruções de Jesus que levaria a sua prisão e morte. ‘Você ira sacrificar o corpo do homem que eu encarno’, teria dito Jesus a Judas, de acordo com o texto intitulado ‘O Evangelho de Judas’.” (O Globo).

         No corpo da bem redigida matéria há um conjunto de informações complementares que ajudam bastante a pensar e posicionar o impacto da notícia: o manuscrito – “autenticado como um trabalho genuíno da antiga literatura apócrifa”  -  foi escrito em copta, em folha de papiro e passou por vários testes científicos que atestaram a sua veracidade, como a análise de carbono 14, a prova contextual, a paleográfica, etc. O autor da matéria, com base em comentário de um especialista em idioma egípcio arcaico que teve acesso ao manuscrito, comenta: “Este texto não só desafia seriamente uma das crenças mais firmemente arraigadas na tradição cristã, mas também reduz a nada um dos temas favoritos do anti-semitismo” (idem).
          A querela que a divulgação da existência de tal manuscrito coloca  tende a dar panos para mangas, talvez produzindo mais paixão do que luz, a exemplo de outras querelas religiosas como a sobre a veracidade do Sudário de Turim e idem sobre os manuscritos do Mar Morto. De imediato, a questão de se Judas Iscariotes é um traidor ou não rendeu vários comentários e artigos na mídia. A respeito, um renomado colunista do já citado jornal O Globo,  cinco dias após o estampar da primeira notícia, manifestando apreensão,  considera:

A descoberta do tal evangelho de Judas, um manuscrito de 1700 anos atrás mostrando que ele não traiu, que não foi o pior dos discípulos de Jesus, mas justamente o eleito para ajudá-lo a se libertar de seu corpo terrestre, soou para mim como se entre os autos da Devassa da Inconfidência Mineira alguém encontrasse um documento dizendo que Joaquim Silvério dos Reis não havia traído o seu xará Joaquim José da Silva Xavier, mas sim que, ao contrário, entregara o pescoço do amigo à forca a pedido do próprio Tiradentes.

         A traição de Judas, pela força simbólica e circunstâncias, é paradigmática do que faz da traição o procedimento mais execrável entre todos os procedimentos execráveis, segundo valoração da  cultura cristã ocidental. Judas traiu o que há de mais sagrado pelo que há de mais profano: entregou Cristo por 30 dinheiros. A coerção exercida  por sua própria consciência por ter praticado ato tão vil  levou-o a autodestruição, ao suicídio. Pode-se considerar que no exposto estão as linhas delineadoras que possibilitam falar de um tipo ideal o que socialmente se configura como “traição. Essa ocorre quando um ou mais membros de um grupo social (primário ou secundário), cujo vínculo de solidariedade que os une é algo representado como sagrado, rompe com tal sacralidade, voltando às costas ao grupo em troca de algo profano, como algum benefício material ou prazer momentâneo. Existem traições de vários tipos e por diferentes razões. Entre as instituições ou sentimentos considerados sagrados, que costumam ser objeto de entrega (heroísmo) e traição, estão: a religião, a família, a pátria, os amigos, o amor e as causas nobres que só podem ser conquistadas com luta, dedicação e sacrifício de pessoas que estão unidas em torno dela.
          Nas linhas que se seguem, tendo por referencial analítico a noção de tipo ideal proposta e valendo-me de casos clássicos ou bem conhecidos, examino como a traição aparece configurada, sobretudo: (1) em letras da MPB envolvendo questões relativas a família, ao casal e o amor;  (2) em Calabar e Tiradentes – personagens marcantes da história colonial, o primeiro no sentido negativo e o segundo no sentindo amplamente positivo; (3) em conhecido livro panfletário,  datado de medos do século XX e que tem o político udenista Carlos Lacerda como centro de ataques.
2. A traição na música popular brasileira.

         O propósito desta parte é o de brevemente analisar como aparece configurada a idéia da “traição” em três clássicos da MPB, a saber: O Ébrio (Vicente Celestino), Vingança (LupicinioRodrigues) e Vou Festejar (Jorge Aragão). 

2.1 Vicente Celestino: “O  Ébrio”, 1936.

         Em 1935, já desfrutando de imensa popularidade, o tenor e trovador Vicente Celestino disse a Gilda de Abreu, sua esposa: “Vou escrever uma coisa que está martelando minha cabeça faz algum tempo” (Machado, 1971). Quando o marido escreveu e ela ouviu pela primeira vez o que martelava a cabeça dele, assustou-se: “se você cantar isso vão dizer que você deu para beber” (idem). A previsão não se concretizou e “O Ébrio”, letra e música do esposo de Gilda de Abreu [3] , tornou-se não apenas um grande sucesso que atravessa o tempo, mais um clássico da música que, sobre a designação de “dor de cotovelo”,  toma a traição como tema. Gravada pela primeira vez pelo próprio autor, os primeiros versos da canção são popularmente os mais relembrados: “Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer / Aquela ingrata que me amava e que me abandonou / apedrejado pelas ruas vivo a sofrer / Não tenho lar e nem parentes tudo terminou”.
         Os reproduzidos versos iniciais deixam bem claro a espinha dorsal da temática que a letra de “O Ébrio” narra, uma história trivial onde ocorre uma dupla traição, ou seja: traição àsacralidade do sentimento “amor” (“aquela ingrata me amava e me abandonou”) e a da família (“não tenho lar e nem parentes tudo terminou”). A razão do procedimento fica implícita: o triângulo amoroso, o velho jogo entre Arlequim, Pierrô e Colombina que acaba estourando no lado mais fraco, já que a carne é fraca. No caso, a resposta do traído é a auto degradaçãomanifesta por haver caído no vício da bebida, talvez como forma de afogar as mágoas pela fuga na embriagues ou como mecanismo de vingança, para mostrar à “traidora” os malefícios a que sua conduta infame o levou, visando criar-lhe sentimento de culpa. É neste sentido que versos à frente, contrapondo a vida feliz de antes da traição à ruína pós-traição, dizem: “Já fui feliz e recebido com nobreza até / nadava em ouro e tinha alcova de cetim / E em cada passo um grande amigo que depunha fé / E nos parentes ... confiava sim / E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então / O falso lar que tanto amava e que a chorar deixei”.

2.2.           Lupicinio Rodrigues. “Vingança”, 1951.

         Outro clássico da MPB que tem por tema “traição, vingança e culpa” é o samba-canção Vingança, de autoria de Lupicínio Rodrigues.  Samba-canção que encontrou em Linda Batista sua primeira grande intérprete, tendo gravado a composição em 29 de maio de 1951. Inversamente a “O Ébrio”, de Vicente Celestino, na “Vingança”, de Lupicínio Rodrigues, não é o traído que se torna um pau-d’água em função da traição, e sim a traidora, provavelmente atormentada pelo sentimento de culpa que o ato de trair lhe causou. A respeito, alguns versos da composição esclarecem: “o remorso / talvez seja a causa do seu desespero / você deve estar bem consciente do que praticou / me fazer passar esta vergonha com um companheiro...”.Os versos iniciais da composição indicam um aparente regozijo do traído pela culpa que a traidora está sentindo: “Eu gostei tanto / tanto quando me contaram / que te encontraram / chorando e bebendo / na mesa de um bar / e que quando os amigos do peito por mim perguntaram / um soluço cortou sua voz / não lhe deixou falar”.
         Interessante observar que nos dois casos o sentimento de culpa que se segue à traição do sagrado (amor e família) por razão meramente material (prazer sexual) conduz à vingança com base da degradação pela bebida, mas por caminhos de mão dupla: no primeiro caso (O Ébrio) o traído tornando-se “pinguço” não apenas esconde suas mágoas embriagando-se, mas também, ao fazer isto, procura (implicitamente, como destacamos) inculcar o sentimento de culpa na “traidora”; no segundo, o traído sente prazer em saber que a traidora se auto-flagela“chorando e bebendo na beira de um bar”.  Na letra do paradigmático samba-canção de Lupicínio Rodrigues o sentimento (algo magoado) que o traído sente ao saber da degradante situação de sua ex-companheira é de vingança: “mas enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada / só vingança, vingança aos santos clamar”. A letra da música termina com uma espécie de rogação de praga: “você há de rolar como as pedras que rolam na estrada / sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”.
         Nesta parte da análise vale ainda destacar que numa rápida consulta a diversas coleções de discos e CDs do tipo “Os Melhores Compositores  da MPB”, pude constatar que no que tange a temática “denuncia de traição” provocando sofrimento e destruindo o sentimento de amor que une o casal ou a família,  a regra é a mulher aparecer como agente culpada e pecaminosa, não o homem. Neste sentido são inúmeras as letras de músicas que tratam do assunto e incidem no considerado ponto de vista. O prevaricar masculino não costuma ser tratado, na MPB, como “traição”, na forma aqui considerada, isto porque numa sociedade machista  tal tipo de procedimento é entendido como um pequeno desvio, como malandragem, produto da “alma boêmia”, mero pecadilho que pode ser resolvido com beijinhos e pelo jeitinho brasileiro. É, por exemplo, com o sentido de  “pequeno pecadilho” masculino que a questão é tratada na letra de “Boemia”, de autoria de Adelino Moreira, e um dos maiores clássicos da MPB, entre os clássicos que  foram imortalizados  pelo vozeirão de Nelson Gonçalves.
         Nos primeiros versos da conhecida letra de “Boemia”, o “boêmio” anuncia o prazer que sente por ter voltado para a madrugada, ficando implícito que a deixara por algum tempo em função de ter se “casado”. A continuidade dos versos explicitam que a felicidade do “boêmio” é total, pois a “companheira” entendeu, desculpou e aprovou seu másculo “pecadilho”:“acontece que a mulher que floriu meu caminho / de ternura meiguice e carinho, sendo a vida do meu coração / compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir / meu amor você pode partir, não esqueça o seu violão”. Nesta parte a letra da composição indica que a mulher atenciosa como é,  mostrando imensa compreensão, ainda o  lembrou  que ele não esquecesse de levar “o seu violão”. É claro que o “boêmio” não o esqueceria, pois o violão funciona – metaforicamente no interior da composição -  como um instrumento fundamental de aproximação do “rouxinol” de outras mulheres. Nos últimos versos, a abnegada mulher do boêmio diz (abraçada a ele): “Vá embora, pois me resta o consolo e alegria / de saber que depois da boemia / é de mim que você gosta mais”.    

2.3. Jorge Aragão. “Vou Festejar”.

         A terceira música destacada incidindo sobre a temática “traição” é o samba “Vou Festejar”, letra do compositor Jorge Aragão e grande  sucesso da cantora Beth Carvalho. Escolhemos este samba, entre muitas outras opções possíveis, por se tratar de música bem conhecida e contemporânea e por ter a particularidade de ter se consagrado na voz de uma mulher. Isto não chega a contrariar  a regra para a qual chamamos a atenção anteriormente ao analisarmos “boemia”, ou seja, que a traição do homem é algo de “desculpável” numa sociedade machista. O fato e ser do sexo masculino o autor da letra e do sexo feminino a cantora que consagrou a composição deixa evidente que tanto pode denotar “traição” masculina ou feminina, e ser cantada por homem ou por mulher.
 Quanto a estrutura e ao significado sociológico da letra, “Vou Festejar” guarda forte similitude com “O Ébrio” e "Vingança”, significado que encontra decodificação à luz do tipo idealinicialmente construído: o pecado de traição ao amor (sagrado) é seguido pelo castigo (pela sentimento de culpa) e pelo desprezo (por parte de quem foi traído). Assim sendo, a letra do samba começa pela alusão a alguém que, arrependido por ter traído, chora, enquanto o traído anuncia o desprezo, a indiferença e a vingança: “Chora não vou ligar / chegou a hora / Vai me pagar”. Versos à frente dizem: “você pagou com traição / a quem sempre te deu a mão / Vou festejar, vou festejar / o teu sofrer o teu penar”. A letra da música termina pela repetição do refrão, como quem - meio ressentido - despreza, denuncia e se vinga do “traidor” ou “traidora” martelando: “você pagou com traição / a quem sempre te deu a mão”.
         Os exemplos de letras de MPB que giram em torno de amor, casal e traição, construídas com referencial na explicitada forma de pensar poderiam ser multiplicados muitas vezes, o que é desnecessário fazer. Acredito também que um exame da crônica policial referente a crimes passionais publicados em jornais e semanários evidenciaria a existência de casos reais estruturados à luz da mesma matriz tipológica especificada.
Em um trabalho de maior fôlego os traços constitutivos do tipo ideal que estamos utilizando também poderiam confirmar a excelência de tal tipo como instrumento de compreensão. Sem que seja meu propósito fazer uma análise acurada nesta direção, apenas cito  entre os textos nacionais consagrados pela crítica que abordam o tema “amor/traição” o conto A Morte da Porta-Estandarte, de Aníbal Machado e um dos mais célebres romances entre os quantos já foram escritos: Dom Casmurro, de Machado de Assis.

3. Pátria e traição:  os casos Calabar e Tiradentes

         O que se pode dizer que há de mais comum entre Domingos Fernandes Calabar e Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes)? O que há de comum e o que diferencia estes dois personagens históricos que, partícipes de dramas reais, possibilitaram que em torno de suas biografias fossem engendradas  representações que povoam o imaginário social brasileiro? O primeiro citado, Calabar, tem seu nome ligado a invasão holandesa, em Pernambuco, nos século XVII. E, o segundo, Tiradentes a Inconfidência Mineira, no século XVIII. Os dois viveram no período colonial de nossa história.  Além desta generalidade o que a biografia de Calabar e a de Tiradentes tem de mais comum é o fato de que ambos foram acusados de “traição”, condenados a morte e esquartejados. Tiradentes por haver conspirado contra a coroa portuguesa e Calabar por ter desertado das forças ligadas a colonização ibérica e passado para o lado dos invasores holandeses. Tiradentes foi preso, julgado e condenado à forca em praça pública, Calabar caiu nas garras de seus antigos aliados e foi sumariamente passado nas armas, sem maiores formalidades. Acontecimentos ulteriores possibilitaram com que Tiradentes fosse concebido como herói máximo da República brasileira e Mártir da independência; quanto a Calabar, ronda-o o estigma de “traidor”, embora exista tensão a respeito.     

3.1. Calabar

         Como pode alguém trair uma pátria que não era a sua? Pois Domingos Fernandes Calabar, que viveu no século XVII,  passou para a posteridade sob o estigma de “traidor”, embora  não se sabe bem de que. Os acontecimentos que mancharam o seu nome estão presentes em livros didáticos de História do Brasil. A “traição” de Calabar teria ocorrido em 1632, durante o que ficou conhecido como “Invasão Holandesa”.
         De uma maneira muito alinhavada, os acontecimentos que importam por em evidência  para o bom entendimento do “caso Calabar” são apresentados a seguir.
Com a União Ibérica (1580 -1640)  Portugal ficou sob o domínio da coroa espanhola durante o largo período de 60 anos. Em decorrência, os comerciantes holandeses que, parceiros dos portugueses mas não dos espanhóis, haviam financiado a construção de engenhos no nordeste e eram mestres na arte do refino do açúcar, ficaram marginalizados do lucrativo empreendimento. A resposta viria em diversas incursões holandesas visando conquistar espaços na região açucareira, agora sob domínio da Espanha.  Depois de algumas tentativas logo abortadas, em 1630 cerca de 3.000 soldados holandeses, a serviço da Companhia das Índias Ocidentais  , desembarcaram de umas três dúzias de navios, sitiando, atacando e ocupando Recife, levando Mathias de Albuquerque, governante da província,  a bater em retirada e estabelecer o núcleo central da resistência aos invasores no Arraial do Bom Jesus, na periferia do local invadido. Nos primeiros anos as escaramuças provocavam baixas dos dois lados, mas uma esmagadora vitória de um lado sobre o outro parecia estar longe de ocorrer. No contexto existente, a deserção e mudanças de lados era algo de corriqueiro. A barafunda reinante, o medo, as emboscadas e a concessão de vantagens imediatas faziam com que soldados, índios, livres e escravos, servissem ora a um ora a outro senhor.
Em 1632, Domingos Fernandes Calabar virou casaca. Ele, que fora ferido lutando nas tropas de Mathias de Albuquerque, evadiu-se para o lado holandês. Alguns estudiosos referem-se  a Calabar como major, outros como soldado. Consensualmente dizem tratar-se de homem de boas posses e destacam sua qualidade de guia. Nesse caso, um dos crimes de Calabar parece ter sido a competência. Acredita-se que a sua passada para o lado holandês foi vital para o avanço dos batavos que, em 1637, após muitas vitórias, reinavam na região, estendendo seus domínios por grande parte dos atuais estados nordestinos de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas.
         A posição que Calabar ocupava na hierarquia das armas  é confusa, uns o alinham  entre os comandantes, outros entre os meros soldados rasos. Quase tudo que se tem escrito sobre a identidade de Calabar é bem confuso. Mas há algo dito sobre ele que tem uma certa constância: as seguidas referências  a Calabar como “mulato”. Suspeito que a construção da identidade racial de Calabar, não como mestiço, mameluco ou coisa do gênero, mas sobretudo como “mulato”, tem relação com determinados aspectos do "inconsciente coletivo nacional" tipicamente racista, que associa mulato e fragilidade de caráter - mas aqui não é o espaço para desenvolver essa instigante questão.
         Em 1634, quando as forças leais a Mathias de Albuquerque batiam em retirada, defrontaram-se em Porto Calvo, em Alagoas, com um pequeno batalhão holandês comandado por um certo Picard, conseguindo vencê-lo.

“Calabar militava no pequeno batalhão  de Picard que, refugiado em Porto Calvo, pediu para capitular. Renderam-se 380 homens que tiveram livre passagem, exceto um que Albuquerque não consentiu, o Calabar, que disse ele ‘devia ficar à mercê del-rei’. Imediatamente foi enforcado e esquartejado, por prêmio de deserção”. (Ribeiro; 1964, p. 152).

         Bem, após a execução de Calabar muito peixe continuou passando por baixo da ponte. Os holandeses tiveram o seu período áureo de domínio entre 1637 e 1644, quando a Companhia das Índias Ocidentais mandou para governar as terras conquistadas o Príncipe Maurício de Nassau (um autêntico “mauricinho”), que muito modernizou a região, tendo inclusive remodelado Recife. O movimento conhecido por Insurreição Pernambucana (1645 – 1644), comandado por senhores de engenho, tem sido tomado como marcante na formação de um sentimento de brasilidade e independência. A Insurreição Pernambucana é diretamente responsável pelo fim do domínio holandês e expulsão da Companhia das Índias Ocidentais do nordeste brasileiro. Os holandeses foram fragorosamente derrotados, pelos insurretos,  nas duas batalhas de Guararapes (1648-1649)   Empalidecidos por estas derrotas e por seguintes acabaram definitivamente deixando as terras que ainda permaneceram ocupando  após 1649, com a capitulação do Campo da Taborda, em 1654. Mais tarde, em 1661, o Tratado de Paz de Haia, ratificou a soberania portuguesa na região.
         As batalhas de Guararapes foram erigidas pela historiografia oficial como marco fundamental do irromper do sentimento nativista brasileiro. Considera que lutando contra os invasores holandeses e vencendo-os, a Insurreição Pernambucana constituída pela união, bravura e coragem  dos homens da terra – brancos, índios e negros – evitou que a unidade territorial da então colônia fosse cindida entre Portugal e Holanda, dividindo-se em duas partes. Desta forma, os invasores da Companhia das Índias Ocidentais teriam sido detidos em sua expansão pelas terras brasileiras pelo  sentimento nacional que tipifica a Insurreição Pernambucana e foi claramente   expresso no “espírito de Guararapes” que libertou a região, não derivando tal libertação de socorro providencial enviado de além mar pela metrópole.
         Como construção simbólica da identidade nacional a Insurreição Pernambucana fornece basilares elementos norteadores. Entre os que foram sacralizados como heróis da Insurreição Pernambucana  estão André Vidal de Negreiros (branco), Felipe Camarão  (índio) e Henrique Dias (negro). Esses três heróis formam a tríade básica sobre a qual repousa o que um antropólogo definiu como “a fábula das três raças formadoras” (DaMatta, 1987). E onde entra Calabar nisso? Ora Calabar é o inverso. Calabar é apresentado na historiografia tradicional como um mestiço, um mulato, que passou para o lado dos calvinistas da Companhia das Índias Ocidentais ajudando-os (em muito pela sua competência como guia) a fundar domínio, durante bom tempo, no nordeste do Brasil. Calabar virou a casaca, traiu...
          Mas a traição de Calabar é bastante cercada por uma angustiosa dúvida. Calabar era brasileiro, é o Brasil no século XVII era uma simples colônia portuguesa, melhor espanhola, em função da União Ibérica. Que vínculo de solidariedade poderia compromissar um “mazombo” com uma pátria ibérica? Como poderia trair uma pátria que não era a dele?  Talvez Calabar tivesse apostado na colonização holandesa por considerá-la melhor que a ibérica.
          Muitas luas e luas depois, na segunda metade do século XX, em 1973, num contexto inteiramente diferente daquele que engendrara as ditas invasões holandesas no período colonial, mas não menos estarrecedor, Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra escreveram Calabar, o elogio da traição  - uma peça de teatro. É bem sabido que, em 1973, o Brasil encontrava-se sob o domínio de uma ditadura e numa fase, conhecida nos dias presentes, como “anos de chumbo”.
          Após meses de ensaio a peça Calabar, o elogio da traição teve a sua encenação proibida pela censura, causando grandes prejuízos.

“Os censores promoviam um exame minucioso na peça, detendo-se nos mínimos detalhes. Uma das censoras chegou a ressaltar o caráter polêmico do espetáculo por este propor uma releitura do personagem histórico Calabar. Para ela, ‘de acordo com a visão dos militares, a história oficial que consagrava Calabar como um traidor não deveria ser discutida, pois poderia propiciar uma reflexão crítica no público, além de despertar o debate dos temas que sugeririam um paralelo com o momento presente (...) Em outro parecer observamos que o mesmo tema, ou seja, a traição de Calabar, inquietava os censores que argumentavam que tal discussão despertaria uma reflexão no público sobre qual seria o melhor governo no país’.” (Freitas e Ramos).      
       
3.2. O segredo da “Exaltação a Tiradentes"

          Na historiografia oficial Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) e  Domingues Fernandes Calabar ocupam posições diametralmente opostas. Vejamos, acusados de traição, ambos pagaram com a vida; entretanto, na posteridade, Calabar manteve a pecha infamante de “traidor”, enquanto Tiradentes foi elevado à qualidade de mártir da Independência, herói da República e da  nacionalidade brasileira. Os dois deram as costas aos colonizadores ibéricos. Calabar por obtenção de vantagem pessoal ou por julgar que a colonização holandesa era superior a lusitana e, portanto, melhor para os colonizados – qual a razão real de Calabar, provavelmente nunca se saberá com certeza. Quanto a Tiradentes, foi por sonhar alto que rompeu com a obediência devida ao governo lusitano. Participou muito ativamente de um movimento inconfidente que tinha por propósito fundar a pátria, desvencilhando a terra brasileira dos grilhões coloniais. Denunciado, preso, humilhado, torturado, condenado a morte, enforcado e esquartejado, Tiradentes não perdeu a razão. Resistiu a tudo em nome da pátria que haveria de vir: “Libertas quae sera tamen”.
          O alferes de cavalaria Joaquim José da Silva Xavier não é um traidor, longe disso, é um herói. Simbolicamente, o alferes deu a vida por amor a pátria que o porvir acabaria trazendo. Mas há uma peculiaridade nesse heroísmo que aqui tenho por propósito colocar em evidência: peculiaridade que faz de Tiradentes mais do que um simples herói construído  pela historiografia oficial, e sim um herói  respaldado por valor típico da cultura brasileira. Para esclarecer o meu ponto de vista a respeito, reflito sobre as razões que fizeram de um samba-enredo dedicado a Tiradentes o primeiro a extrapolar o dia do desfile e obter grande sucesso popular. Refiro-me a Exaltação a Tiradentes, apresentado no Rio de janeiro no carnaval, em 1949, pela Escola de samba Império Serrano. Samba-enredo composto por Mano Décio da Viola, Penteado e Estanislau Silva. 
          Qual o segredo de “Exaltação a Tiradentes” que, em meio de tantos outros sambas-enredo que eram simplesmente esquecidos após o desfile, encontrou condições de permanência, tendo sido diversas vezes gravado e é sempre lembrado como o primeiro clássico do gênero? 
          Importante observar que, em 1949, a imprensa pouco se interessava por escolas de samba. Jornais e revistas de grande circulação, preocupados com os bailes em clubes de elite, com os concursos de fantasia do Teatro Municipal, com o carnaval de rua, como os desfiles dos ranchos e das grandes sociedades, pouco noticiavam sobre as Escolas de Samba. O rádio, principal veículo de comunicação da época, caitituava, nos meses que precediam a folia, sambas e marchinhas de consumo carnavalesco. Quanto aos sambas-enredo, eram mal divulgados e não era costumeiro gravá-los. As próprias Escolas que ainda estavam longe de se transformarem em indústrias culturais, procuravam mantê-los em segredo até a hora do desfile.
          O samba-enredo “Exaltação a Tiradentes”, dividido em duas partes, possui apenas 13 versos: “(I) Joaquim José da Silva Xavier / Morreu a 21 de abril / Pela independência do Brasil / Foi traído / E não traiu jamais / A inconfidência de Minas Gerais / (II) Joaquim José da Silva Xavier / Era o nome de Tiradentes / Foi sacrificado / Pela nossa liberdade / Esse grande herói / Para sempre há de ser / Lembrado”.
          Na letra em questão há uma parcimônia de informações. Os 13 versos de “Exaltação a Tiradentes”, esclarecem: o nome completo do homenageado (Joaquim José da Silva Xavier), o apelido (Tiradentes), a data incompleta da morte (21 de abril) e faz menção a algumas generalidades, tais como: inconfidência, independência e liberdade. As informações esgotam-se no universo de dados contidos em manuais de ensino primário ou nos das primeiras séries do ensino secundário. É o próprio Mano Décio da Viola quem explica:

“Peguei um livro do primeiro ano ginasial de minha filha e foi nascendo o samba Tiradentes. Faltava a segunda parte. Aí me lembrei do Penteado. Ele tinha um samba com a primeira parte fraca, mas a segunda muito boa [...] Penteado foi chegando todo ressabiado e quando encostou cantamos a primeira parte do samba que eu tinha feito. Ele escutou, nós repetimos. Quando ele foi tomando gosto, eu joguei a pedra em cima dele: ‘se você jogar aquela segunda, vê se casa com a primeira’. Ele tremeu, cantei, mandei cantar outras vezes e, de repente perguntei: ‘Pode ficar esta segunda, não pode?’. Quando ele autorizou, eu falei: ‘Está pronto o samba.
         Mais do que “casar” com as informações da primeira parte, as da segunda limitavam-se a confirmá-las. Mesclando as duas partes, a letra do samba-enredo pode ser lida numa ordem mais direta, da seguinte forma: Joaquim José da Silva Xavier / Era o nome de Tiradentes / Morreu a 21 de abril / pela independência do Brasil / Foi sacrificado / Pela nossa liberdade / Foi traído / E não traiu jamais / A inconfidência de Minas Gerais / (assim sendo) Esse grande herói / Para sempre há de ser / Lembrado.
          Entre as prováveis razões do sucesso de “Exaltação a Tiradentes” é possível mencionar: tratar-se de samba harmônico e bem cadenciado, ter letra curta e linear, ser fácil de guardar – uma vez que contém informações encontráveis até mesmo em manuais de ensino básico. Portanto, informações que – grosso modo - “todo mundo” já sabia. Acrescente-se às informações citadas uma que me parece ser determinante da razão do sucesso de “Exaltação a Tiradentes” e que, qualitativamente, diferencia este samba-enredo de outros sambas-enredo que, alicerçados em literatura didática, haviam sido compostos e passados despercebidos.
          Joaquim José da Silva Xavier – alferes de cavalaria, mascate e tira-dentes – é personalidade histórica de forte identificação popular, inclusive porque sua imagem foi construída na pintura de Pedro Américo (1843 – 1905), e na de outros artistas, como uma espécie de “Cristo barroco”. Tiradentes é um dos raros personagens históricos classificados como herói pela literatura didática que é também identificável por anseios e valores populares. Não se trata de um homem rico que os livros contam, fez isso e aquilo para o bem do país. Trata-se de um militar subalterno que foi condenado à morte por envolver-se numa conspiração que almejava a independência do Brasil. Tiradentes foi preso, enforcado  e esquartejado, nada de concreto podendo fazer. Por que então, afirma que “esse grande herói , para sempre há de ser lembrado?”. Dois versos anteriores da mesma letra respondem à indagação: “Foi traído / e não traiu jamais”. Quer dizer, Tiradentes foi alcaguetado e não alcaguetou jamais. O Alferes é um verdadeiro herói na acepção popular. O homenageado deve para ser sempre ser lembrado (por todos), por ser um exemplo. Alguém, identificado com o princípio popular, o código de honra que diz: “ninguém, por motivo nenhum, nem sob tortura ou ameaça de morte, deve entregar o outro”. Foi assim que procedeu Tiradentes, mesmo traído, não entregou ninguém, não alcaguetou, mantendo-se fiel ao decantado sentimento de liberdade do homem brasileiro. Pagou com a vida.
          No samba de breque , “Na Subida do Morro”, composto por Moreira da Silva e Silva Ribeiro Cunha, há menção ao referido código de honra. Na letra da composição, seus autores citam o conhecido adágio popular que diz: “Malandro que é malandro não entrega o outro, espera para tirar a forra”. E convenhamos, levando em conta que a Independência do Brasil ocorreu cerca de três décadas após a “Inconfidência Mineira”, Tiradentes, que não entregou ninguém, “soube esperar” e tirar um grande forra histórica.
          A genialidade dos autores de “Exaltação a Tiradentes” está no fato de que, reproduzindo, deixam a desnudo a pobreza das informações contidas em livros didáticos, colocando em evidência o único fator que possibilita pensar o “mártir da independência” como um verdadeiro herói popular, símbolo do homem brasileiro: Tiradentes era um cabra macho, um bamba, e não um desprezível dedo-duro, um traidor. Acreditamos que é esta faceta que diferencia “Exaltação a Tiradentes” de outros sambas-enredo anteriores , daí o sucesso e a permanência.             
              
4. A traição na Política (2ª República)

4.1. O Carreirista da traição
           No início dos anos 60 o jornalista Epitácio Caó publicou “Carreirista da Traição”, livro  que tem Carlos Lacerda como protagonista. Trata-se de uma retaliação e, salvo erro, o primeiro livro brasileiro sobre política que traz a palavra “traição” no título.
Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914 – 1977), jornalista, político, editor, escritor e tradutor, líder carismático (amado e odiado), mestre na arte da polêmica, demolidor de presidentes, tido como “o maior tribuno que passou pela Câmara dos Deputados” , tornou-se também bastante conhecido por constantes mudanças de opinião em reação a partidos políticos, doutrinas e personalidades públicas.
 Em “Carreirista da Traição”, Epitácio Caó apresenta uma seleção de textos extraídos de matérias escritas e publicados por Lacerda na “Tribuna da Imprensa”, entre 1950 e 1959, colocando em evidência o caráter intrinsecamente contraditório de tais escritos. Nas passagens selecionadas por Caó, Lacerda, que foi comunista na juventude e ferrenho anticomunista enquanto político profissional, com pequena diferença no tempo, elogia e critica as mesmas instituições, doutrinas e atores políticos, fazendo as duas coisas com linguajar igualmente agressivo e apaixonado, típico de quem escreve um panfleto do qual depende a salvação de alguma causa sagrada. Assim sendo, o nacionalismo um dia é definido por Lacerda como “um sentimento, uma exigência de respeito próprio” (14/9/1957) e, no outro, como “um mero instrumento ideológico e um pretexto político para dar cobertura à expansão do comunismo em todas as fileiras, em todos os campos, em todos os setores” (1/7/58). Epitácio Caó vai alinhando pontos de vista emitidos por Lacerda na Tribuna da Imprensa; pontos de vista que primam pela contradição interna: o endeusado de hoje pode ser o satanizado de amanhã e vice-versa. Entre os deuses/diabos de Lacerda estão Juarez Távora, Assis Chateaubriand, Afonso Arinos, o marechal Lott e muitos outros. Entre as instituições, ora atacadas ora defendidas, estão o jornal  O Globo e a  União Democrática Nacional (UDN), partido pelo qual Lacerda obteve os seus mandatos, se elegendo vereador (1947) e deputado federal (1954) e  governador do antigo Estado da Guanabara  (1960). 
 Epitácio Caó fez a seleção em 1959, período próximo a escolha de Jânio Quadros, pela UDN,  como candidato a presidência da República na eleição de 1960, escolha que acabaria se confirmando, tendo Jânio sido sufragado presidente na referida eleição.   São as posições contraditórias de Lacerda em relação a Jânio Quadros que ocupam o maior número de páginas do“Carreirista da Traição”. A exemplo de outros, Jânio é apresentado ora como símbolo ora do bem, ora do mal. Num dos primeiros textos que Caó destaca, Lacerda refere-se a Jânio Quadros, na ocasião governador de São Paulo, eleito sobre a sigla do Partido Democrático Cristão (PDC), como alguém “capaz de dar a vida pelo que promete” (22/4/1953). Cerca de dois anos Lacerda escreve: “Tenho todos os motivos para não confiar no Sr. Jânio Quadros” (4/4/1955).  Ainda em 1955 Caó destaca textos de Lacerda onde Quadros é apresentado como“paranóico” (6/4/1955), “charlatão” (11/4/1955) e “traidor contumaz” (4/7/1955). A reviravolta não demora, e antes que a década terminasse Lacerda escreve nas páginas do mesmo jornal: “entendo que a UDN deve apoiar a candidatura de Jânio Quadros” (17/2/1959); ou ainda: “sustento a candidatura de Jânio Quadros como soldado dessa candidatura” (25/3/1959). Em outra passagem selecionada por Caó, considera: “O sr. Jânio Quadros é o homem capaz de criar um regime no qual haja confiança na autoridade” (10/3/1959). E para concluir, um dia Lacerda escreveu sobre Jânio: “O sr. Jânio Quadros é a versão brasileira de Adolph Hitler” (20/5/1955), e, em outro: “Se a UDN quer defender o destino da democracia deve apoiar imediatamente a candidatura de Jânio Quadros” (13/4/1959).
 Em 1977, Carlos Lacerda deu uma longa entrevista ao Jornal da Tarde (SP). Indagado sobre o livro de Caó, comentou:
   
‘Nunca li o livro todo. As coisas que li são verdadeiras. Agora, se quisesse não lhe dar uma resposta direta, eu repetiria Ruy Barbosa: ‘só os burros não cometem incoerência. Só os burros não mudam de opinião’. Mas prefiro justificar com palavras minhas. O que acontece é o seguinte: os acontecimentos mudam, a coisas mudam de aspecto. E só realmente uma pessoa obstinada ou vaidosa é que não reconhece quando as coisas mudam. O que peço a Deus e que me conserve exatamente essa capacidade de parecer incoerente, quer dizer, de elogiar o sujeito quando o sujeito me parece que está fazendo coisa certa e, amanhã, espinafrá-lo quando me parece que ele está fazendo a coisa errada. Agora, se você juntar as duas coisas, você é que parece incoerente. O incoerente é ele! Nesse livro (o livro de Epitácio Caó) há muitas coisas desse gênero. Jânio Quadros, por exemplo: o Jânio apareceu como um sujeito disposto à vassoura, disposto a fazer um grande governo. Depois mostrou o contrário. Quem é o incoerente? Eu que o elogiei quando ele parecia bom e o ataquei quando ele ficou ruim? Ou foi ele, que parecia bom e ficou ruim? Incoerente seria eu se continuasse a elogiá-lo”. (Citado por Cunha Júnior: O Estado de São Paulo, 20/05/2001).

Para os propósitos do presente estudo não vem ao caso analisar algumas incongruências existentes na entrevista-depoimento de Lacerda, como por exemplo o fato de ele provavelmente haver ”esquecido” que o livro de Caó foi publicado cerca de anos antes do seu desentendimento com Jânio Quadros, quando o político paulista ocupava a presidência da República (entre janeiro e agosto de 1961), e lhe ter feito novas críticas. As críticas a Jânio  que Caó seleciona e publica, como constatamos, estão compreendidas entre 1953 e 1959. Além disso, as criticas feitas – transcritas no livro de Caó – dizem respeito a caráter e não a meros desentendimentos derivados do fato de em momentos determinados, Jânio e Lacerda terem seguido caminhos cruzados.
 Concretamente, do livro “Carreirista da Traição” que tem mais de duzentas páginas, Caó escreveu, contando como o ordenamento do “índice dos capítulos”, apenas 11 páginas. Escreveu “Flagrante do Brasil”, como uma espécie de “introdução”. Nesta, refere-se ao Maracanã não apenas como o maior Estádio de Futebol do mundo, mas também como o “maiormictório do mundo”. Em seguida a irônica observação, acrescenta: “Quem quiser ver, vá lá e leve lenço para por no nariz” (Caó: s/d1, p. 9). O Maracanã era, na época, além de palco de partidas de futebol, o local onde o egrégio Superior Tribunal Eleitoral escolhera para a apuração das eleições realizadas no então Distrito Federal. Numa dessas apurações, Caó descreve uma situação de balbúrdia infernal, num local fétido, impróprio para a atividade, com parca segurança e por onde se espalhavam 60 Juntas apuradoras.

“Em algumas Juntas arranjaram uma tábua cheia de pregos onde eram espetados os votos; noutras, havia caixinhas de charutos, cada qual correspondente a um partido político, para coleta das preciosas cédulas; em quase todas as Juntas apuradoras viam-se pratos com sanduíches, copos com garrafas de refrigerantes, saquinhos de biscoitos, tudo de mistura com envelopes, sobrecartas, cédulas-únicas, urnas e milhares de cédulas”. (Caó: s/d1, p. 13).    

Em nenhum momento de seu livro Caó explicita porque classifica Carlos Lacerda como “carreirista da traição”. Limita-se apenas a destacar sérias incongruências  presentes no que o “tribuno” da Tribuna da Imprensa escreve sobre as mesmas instituições ou atores sociais, com pequeno intervalo de tempo. Lacerda não é ao menos o centro que ordena as palavras críticas de Caó na “introdução” Flagrante do Brasil; mas tais palavras  recaem sobre ele. Lacerda só surge nos dois últimos parágrafos da introdução. Surge no penúltimo parágrafo como primeiro patrono da candidatura de Jânio, precedido de sarcástico comentário de que “nem tudo está perdido, porém, pois o ‘Jânio vem ai’... como diz a propaganda dos muros” (Caó: s/d1,p. 19) . E no último, não com menor sarcasmo, onde Caó considera que está no fato de ter composto o livro com seleção de textos de Lacerda “a razão por que seu nome figura também na autoria desta obra, que é muito mais sua, e por isso com ele estamos dispostos a dividir, igualmente, os direitos autorais respectivos” . (Caó: s/d1, p. 19)
 Numa livre interpretação do título do livro de Epitácio Caó pode se dizer que o autor insinua que o mandato popular deveria ser algo de sagrado, com o sentido do  conhecido  ditado que diz “a voz do povo é a voz de Deus”. No caso de Lacerda, ele é insinuado como um “carreirista”, como alguém que não respeita a sacralidade do mandato popular e ascende no campo político pela constante prática da traição, ou seja: a prática de elogiar e atacar os mesmos atores políticos, dependendo de seu interesse imediato. Tal proceder o permitia abraçar a mobilidade no campo político e não uma bandeira de luta. Mas afinal de contas, foi o próprio Lacerda quem disse : “Não gosto de política (...) Gosto é do poder”. (citado por Cunha Junior: 20/05/2001).   
 

 Breve conclusão

         Tomando a traição de Judas como paradigmática da noção de trair na cultura ocidental, elaborando um tipo ideal com os rasgos mais providos de significados sociológicos presentes na referida traição e  à luz da metodologia da chamada sociologia compreensiva de corte weberiano,  examinei várias formas de traição presentes no imaginário brasileiro, mormente na MPB, na historiografia e na vida pública. Todas estas questões que tem grandes e complexos desdobramentos e práticos e teóricos foram tratados com rigor mas nos limites de um artigo.